divagares

Dezembro 23 2010

O Natal da minha infância não me traz gratas recordações. Filho de pais assalariados rurais que tinham oito filhos, numa tal família o Natal nunca poderia ser grande coisa. A minha mãe fazia das tripas coração para que uns chocolates fossem distribuídos pelos mais novos (os que ainda não trabalhavam e neste grupo estava eu). Brinquedos estavam fora de questão! Mas, nem em todos os Natais conseguia aquele feito - bastava chover abundantemente! Com chuva não se podia trabalhar. Sem trabalhar não havia salário, (jorna, era assim que chamavam à remuneração que recebiam) e comprar fiado, só o indispensável, era o lema da minha mãe.

Depois, havia o presépio na igreja e a árvore de natal na loja da Lucinda Pisco: Que deslumbramento! Íamos lá contemplar aquela maravilha várias vezes ao dia, eu e mais os miúdos da minha rua, o Jorge, o Fernando e o Chico, outras vezes eu com as minhas duas irmãs mais novas. Já pelos oito, nove anos, como não havia pinheiros na minha terra, ia ao campo de onde trazia um arbusto que se parecesse com o pinheiro e armava a nossa própria árvore decorada com pratas dos bombons e algodão a imitar a neve. Isto já era mesmo o Natal dentro de casa...

 

A seguir foi o Natal já como trabalhador (tinha dez anos!) e fora do seio familiar. Nestes não cabiam os chocolates, recebia da minha patroa um par de meias ou umas cuecas. Fora isso não acontecia mais nada. A filha da patroa armava a árvore de natal na sala de jantar mas nessa divisão da casa estava vedada a minha entrada, de modo que eu só conseguia ver a dita-cuja, à sorrelfa quando não havia ninguém por perto, abrindo uma greta da porta e espreitando - no meu entendimento não fazia nada de mal. Na casa dos meus patrões não havia consoada, havia rancho melhorado no dia de Natal, mas eu almoçava e jantava sozinho no mesmo sítio de todos os dias num canto atrás do balcão, tendo por companhia o som de um rádio marca Braun, se o humor do patrão o permitia. O meu trabalho era empregado de balcão numa loja de tudo um pouco: mercearia, sementes e adubos, taberna. Sempre a mesma coisa das sete às vinte e duas horas, sete dias por semana, trinta dias por mês, durante vários anos. Era um tempo em que nunca ouvi a expressão trabalho infantil, e contudo...

publicado por divagares às 21:19

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