divagares

Junho 22 2014


- Havia uma canção de que ela gostava especialmente. Por sinal bem bonita, uma espécie de hino triste e comovente, chamado "Dubinuchka", uma canção simples cantada com uma balalaica em fundo. A letra da "Dubinuchka" estava impressa em inglês por dentro da capa do álbum e ela aprendeu-a de cor e depois andou a cantá-la por toda a casa durante meses.

(...) 

Mas do que ela mais gostava era de cantar o refrão, porque dizia "força - oh".

Vá, pegar no batente,

Força - ooh!

Todos à uma,

Força - ooh!

Quando a Lorraine estava sozinha no quarto alinhava as bonecas todas, punha o disco da "Dubinuchka" a tocar e começava a cantar tragicamente "Força - ooh!  Força -. ooh!" ao mesmo tempo que empurrava as bonecas pelo chão fora em todas as direcções.

-Espere Murray, é só um minuto - disse eu, levantando-me e entrando em casa, no meu quarto, onde tinha o leitor de CD's e o velho fonógrafo. A maior parte dos meus discos estava guardada num armário dentro de caixotes, mas eu sabia em qual deles ia encontrar o que procurava. Peguei no álbum que o Ira me tinha oferecido em 1948 e tirei o disco que tinha a "Dubinuchka" cantada pela Banda e Coros do Exército Soviético. Mudei o regulador de velocidade para 78 r.p.m., limpei o disco e coloquei-o no prato do gira-discos. Pousei a agulha na ranhura, precisamente antes da última faixa, subi o volume para que o Murray pudesse ouvir a música através das portas abertas que separavam o meu quarto da varanda e voltei para junto dele.

Ficámos a ouvir, no escuro, não eu a ele ou ele a mim, mas ambos a "Dubinuchcka". Era exactamente como o Murray a tinha descrito: lindíssima, uma canção tradicional, triste e comovente, uma espécie de hino. Salvo pelo arranhar da superfície já gasta do velho disco - um som cíclico não muito diferente de alguns ruídos campestres nocturnos que todos conhecemos - a canção parecia chegar até nós vinda de um remoto passado histórico. Nada parecido com o estar deitado na varanda a ouvir os concertos ao vivo de Tanglewood transmitidos ao sábado à noite. "Força - ooh! Força - ooh!"


Philip Roth
publicado por divagares às 13:07

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