divagares

Maio 11 2014

Venham leis e homens de balanças,
mandamentos d'aquém e d'além mundo.
Venham ordens, decretos e vinganças,
desça em nós o juízo até ao fundo.

Nos cruzamentos todos da cidade
a luz vermelha brilhe inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.

A quantas mãos existam peçam dedos
para sujar nas fichas dos arquivos.
Não respeitem mistérios nem segredos
que é natural os homens serem esquivos.

Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exata.
Não aceitem nem queiram outra arte
que a prosa de registo, o verso ata.

Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão de ruir em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.

 

José Saramago

publicado por divagares às 19:46

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