divagares

Abril 25 2014


Faz hoje 40 anos estava desempregado. Há 25 dias. Desemprego resultante de um confronto verbal entre um camarada (Gaspar, baleizoeiro, ex-preso político, portador de uma deficiência física e com filhos menores) e o chefe dele e meu. Iniciaram a desavença na carpintaria e acabaram no gabinete que era o meu local de trabalho. O desentendimento acabou com o baleizoeiro a ameaçar o chefe que o matava. Dito isto, na presença de um único ser (eu), para além dos dois contendores, está bom de perceber o que iria seguir-se. Mal o Gaspar terminou a ameaça, pensei para comigo: já estou fodido!

Bom, seguiu-se a participação do chefe, o inquérito e a minha chamada à presença do inquiridor para confirmar o teor da participação: ameaça de morte! A testemunha (eu) tinha duas opções. uma a lealdade à direcção da empresa, a outra, a solidariedade de classe com o trabalhador. Não hesitei, mesmo tendo pelo chefe a maior consideração e respeito. Fiz-me de mula. Que não ouvi. Que estava tão concentrado no trabalho, nem dei atenção às palavras ditas. Registadas as resposta, fui dispensado. Passei pela carpintaria para dizer ao Gaspar que aquilo iria dar em nada porque a testemunha única afirmou nada ter ouvido.

Até ao fim de Março tudo decorreu normalmente. Dia 30 sou chamado à secção de pessoal onde me é dado conhecimento do despedimento com justa causa! A consolação que tive neste processo foi ao Gaspar nada ter acontecido e continuar na empresa até ao seu encerramento.

Dirá quem ler este texto, que tem o caso a ver com o 25 de Abril? Na verdade este despedimento não foi inocente. Pouco antes os trabalhadores da IMA protagonizaram uma formidável luta ao longo de vários dias, com adesão quase total e efeitos devastadores na produção. Luta a que a direcção da empresa só conseguiu pôr fim, chamando a PIDE, que se instalou na fábrica durante a noite, e de manhã confrontou cada trabalhador com a condição de só entra se assinar esta folha a comprometer-se que retoma o trabalho. Mesmo nestas condições, nesse dia a luta continuou com elevada adesão. Ainda no decorrer desta luta fui chamado ao gabinete de um director onde me pressionaram a dizer o nome dos "cabecilhas". Como não entrei nesse jogo, fiquei na lista negra...

Já depois do 25 de Abril fui contactado para ser readmitido, o que não aconteceu por já ter optado por um outro rumo para a minha vida, bem mais exaltante.
publicado por divagares às 09:38

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