divagares

Setembro 26 2014

"1968-1969. Era então um jovem alferes miliciano, oficial de transmissões do Comando de Agrupamento 2952, inicialmente estacionado em Mansoa, Guiné.

Poucos dias depois de chegar, em Janeiro as tropas do PAIGC, a que então chamavamos "terroristas", atacaram o destacamento de Jugudul, na outra margem do rio. O "inimigo" deixou ali um morto, a quem os nossos soldados cortaram os testículos e penduraram no arame farpado. O troféu de guerra foi profusamente fotografado. Perante este espectáculo, pouco edificante, o padre Mário de Oliveira, capelão do batalhão (mais tarde o famoso "padre da Lixa", preso pela PIDE/DGS), na missa das 6 horas da tarde, fez uma prática contra este acto selvático, o que foi logo mal interpretado por alguns oficiais do quadro, entendendo que a sua acção estava a desmoralizar as "nossas tropas".

Talvez este não seja um exemplo de crime de guerra, mas sim de desrespeito pela morte de um adversário, que decerto lutava por um ideal. Crimes de guerra, porém, ouvi-os contar muitas vezes, aos meus camaradas operacionais, onde sempre se destacavam aqueles que respeitavam os outros (alguns milicianos, como eu, mas também experimentados militares profissionais, como o major Fabião) e aqueles que se deixavam enfeitiçar pelo sangue das batalhas, infelizmente batalhas sem glória, numa guerra que se arrastou e que só terminou com o fim do regime."

Do depoimento de Luís Reis Torgal, inserido em Marcas da Guerra Colonial, de Jorge Ribeiro

 

Do caso relatado por Reis Torgal, fui contemporâneo. De facto, os autores pertenciam ao meu Batalhão (Caçadores 1912) e estavam aquartelados em Mansoa, onde fizeram a comissão a CCS (a minha companhia) e a Companhia de Caçadores 1686. As instalações do Jugudul, no caminho para Bissau, a muito curta distância de Mansoa, nessa altura consistia num deprimente abrigo cercado de arame farpado, onde permanecia um reduzido número de homens - uma secção reforçada. A população local, segundo estimativa militar, rondava as 900 pessoas. Certo dia, como "turista", fui ao Jugudul a convite do capelão, padre Mário de Oliveira, numa das suas deslocações para fins religiosos. Saliento a atitude corajosa e frontal do capelão face a actos macabros como o acima descrito ou relativamente ao colonialismo e à guerra que condenava liminarmente. Sem papas na língua.

Naquele tempo os militares que eram periodicamente deslocados para o Jugudul, pertenciam às Companhias de Caçadores 1420 e 1686, Cavalaria 1615 e Artilharia 1660. Em Janeiro de 1968 o destacamento esteve entregue à C. Caçadores 1686 e a flagelação do PAIGC ocorreu no dia 26 desse mês, durou cerca de 10 minutos e provocou 3 feridos ligeiros à tropa portuguesa. Da parte do PAIGC, admitiu a guarnição do destacamento que terá sofrido 5 feridos (não sei como o podem admitir...) e deixaram um morto no terreno, o tal que foi alvo da mutilação dos genitais.

  
Foto actual do capelão, padre Mário de Oliveira
publicado por divagares às 12:33

amigo, fui eu quem no dia seguinte ao ataque no Jugudul encontrei o guerrilheiro do PAIGC atrás de um monte de baga baga. quando lá fui fazer o reconhecimento com a minha secção vinda de Mansoa. (Car 1660.)
Jorge a 18 de Outubro de 2014 às 19:36

Caro Jorge, Será um facto que estivemos ambos em Mansoa naqueles anos. Provavelmente até nos conhecíamos... Eu era cabo escriturário da CCS (1912), diariamente hasteava a bandeira nacional (portuguesa). Já agora, poderias ajudar na confirmação de que era, ou não, pessoal da 1686 que estava no Jugudul nessa semana. A esta distância eu não consigo ter essa certeza. Para o texto que elaborei, socorri-me de elementos obtidos no Arquivo de História Militar.
divagares a 18 de Outubro de 2014 às 21:51

Vou contar exatamente o que se passou. O meu pelotão estava de piquete nessa noite do ataque ao Jugudul. Ao alvorecer pouco tempo depois do ataque cheguei com a minha secção ao local, entramos no quartel e vimos as paredes furadas por balas de metralhadora de grosso calibre as quais atravessara as paredes do posto até aos quartos.. Fomos de seguida ver o local exato donde partiu o ataque e encontramos um rapaz negro com cerca de 15 a 16 anos deitado atrás do monte de bagabaga de barriga pra cima e enrolado num pente de balas iguais às que perfuraram o posto. Era o municiador da metralhadora pesada. Eu para lhe retirar o pente de balas virei-o de barriga pra baixo e foi então que ao colocar a mão na cabeça dele esta ficou ensanguentada. Tinha uma perfuração na cabeça por tras desta. Depois disso tive conhecimento de que o corpo apareceu mutilado, orelhas decepadas..deve ter sido antes de o enterrarem penso eu. Abraço. Jorge
Jorge a 23 de Outubro de 2014 às 13:03

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