divagares

Agosto 15 2015

Um pássaro na palavra

 

E ali estava no céu há duzentos anos

e toda a gente dizia para sempre que

cantava com uma voz divinamente mística

uma grande águia desdobrando as asas

aos ventos do mundo

e aos povos

oh como vêm

em barcos e aviões

e como montaram o grande pássaro

e como ele os levou de passeio

e voou milhares

e milhares de milhar

e como gostava de levar gente de passeio

faziam tocas no grande costado

e fossos nas asas

e cavavam nos grandes genitais

e extraíam os sucos a taxa reduzida

e treinavam e ajaezavam

este pássaro divinamente místico

e ele foi enfraquecendo

e envelhecendo

e os cabelos brancos

caíram da sua cabeça  encanecida

e chamaram-lhe

a águia careca

e pôs um ovo em hiroshima

e outro em nagasaki

e perdeu a voz

e as penas caíram-lhe sobre cuba

e a república dominicana e o mississipi

e as asas caíram-lhe sobre o vietname

e fizeram penas sintéticas para tapar as faltas

e ninguém acreditou no seu canto

nem mesmo as joaninhas

e ao cair tornou-se um falcão

e começou gente a cair

sufocada pelo fedor de um sonho moribundo

e tornou-se um canário

cantando versos de cor

a um mundo comprado dentro de um mundo

e o dia tornou-se noite

e o atrás tornou-se frente 

e o preto tornou-se branco

e as folhas de erva viraram-se e gemeram

e as árvores gemeram

e o ar uiva e guincha

o seu lamento contra a américa.

 

Poema de Robert Saggese, integrado na Antologia da novíssima poesia norte-americana, traduzida por Manuel de Seabra, uma edição da Futura, 1973.

 

 

publicado por divagares às 11:49

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