divagares

Novembro 02 2015

O aerograma. O que é? Perguntarão os mais novos. O aerograma. Era o portador do sinal de vida para a família. Era um escape. Enquanto se escrevia o aerograma era como se falasse com a mãe, com o pai, com o irmão, com a namorada, com o amigo. Havia até quem cruzasse a escrita. Era assim como dois em um. Escrevia-se na vertical com cor preta, depois escrevia-se na horizontal com cor azul. Conheci vários camaradas que optaram por essa forma. Inspirados no nosso 1º.. Terei sido o causador da adopção do método, no caso desses camaradas, por, conhecedor de como escrevia o nosso 1º. os seus aerogramas para a esposa, ter badalado junto de alguns deles. Assim um aerograma dava para o dobro do paleio.

O aerograma. E o SPM. eram íntimos entre si. O SPM, Serviço Postal Militar. Criado para facilitar a coisa. Cada Unidade tinha o seu SPM. Ou seja, um número, salvo erro de quatro dígitos. O último desses correspondia à colónia.

E na correspondência da família o endereço do destinatário consistia apenas no nome e SPM. Já não me recordo do meu SPM. Não sou possuidor de um único exemplar de aerograma. Algum tempo depois do meu regresso da Guiné, num impulso mais ou menos lírico resolvi esquecer a guerra. Destruí tudo, dos meus pertences, que lhe era referente. Portanto também os aerogramas que escrevi e os meus pais haviam guardado. E o meu pai, que assistiu, bem se indignou.

O aerograma era uma folha com tamanho e feitio que permitia, quando dobrado, assumir a forma de carta.Era de papel relativamente fino, leve, de cor amarelada. Escrever o aerograma seria, talvez, o momento de recolhimento por excelência de qualquer militar. Não no caso do nosso 1º. que os escrevia na secretaria nas horas de normal funcionamento, enquanto ia conversando com os circunstantes. Já o nosso capitão não usava aerogramas. Só cartas. Que eram escritas no recato do seu quarto. Quando, de manhã, chegava à secretaria incumbia-me de ir entregar a carta ao cabo do SPM, que por essa hora já estava no unimog para seguir rumo a Bissau. As praças não tinham quarto. Secretaria também não tinham. Habitavam um barracão que servia de caserna, atafulhado de beliches. Era em cima do seu beliche que, as mais das vezes, escreviam os seus aerogramas. Ou então num qualquer recanto do aquartelamento. E havia os que não escreviam os seus aerogramas. Eram analfabetos. Em número residual é certo, mas infelizmente havia. Pediam a um camarada mais chegado para escrever por eles. Ditavam em voz audível para o escrevente. Uma situação constrangedora. Para o próprio e para os que assistiam. Nestes casos, privacidade "cá'tem"...

O "recolhimento" a que aludi acima, não era provocado pela necessidade de procurar inspiração, mas porque era naquela ocasião que se exprimiam sentimentos povoadores da alma. Só partilháveis com aqueles que amamos. Escrever o aerograma convidava por isso a uma certa intimidade. Entre o militar a caneta e o aerograma. Nesses momentos, não raro se vertia uma lágrima. Coisa impensável na presença dos camaradas. Na presença desses era a bazófia, a virilidade, o desenrascanço que falavam mais alto.

Pensei nisto tudo depois de ler o belo poema de João Monge.

 

publicado por divagares às 11:44

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