divagares

Abril 11 2014

 

Poearma

 

Que o poema tenha rodas motores alavancas

que seja máquina espectáculo cinema.

Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.

Que seja um autocarro em forma de poema.

 

Que o poema cante no cimo das chaminés

que se levante e faça o pino em cada praça

que diga quem eu sou e quem tu és

que não seja só mais um que passa.

 

Que o poema esprema a gema do seu tema

e seja apenas um teorema com dois braços.

Que o poema invente um novo estratagema

para escapar a quem lhe segue os passos.

 

Que o poema corra salte pule

que seja pulga e faça cócegas ao burguês

que o poema se vista subversivo de ganga azul

e vá explicar numa parede alguns porquês

 

Que o poema se meta nos anúncios das cidades

que seja seta sinalização radar

que o poema cante em todas as idades

(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

 

Que o poema seja microfone e fale

uma noite destas de repente às três e tal

para que a lua estoire e o sono estale

e a gente acorde finalmente em Portugal.

 

Que o poema seja encontro onde era despedida.

Que participe. Comunique.E destrua

para sempre a distância entre a arte e a via.

Que salte do papel para a página da rua.

 

Que seja experimentado muito mais que experimental

que tenha ideias sim mas também pernas.

E até se partir uma não faz mal:

antes de muletas que de asas eternas.

 

Que o poema assalte esta desordem ordenada

que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!

Que faça ginástica militar aplicada

e não vá como vão todos para França.

 

Que o poema fique. E que ficando se aplique

a não criar barriga a não usar chinelos.

Que o poema seja um novo Infante Henrique

voltado para dentro e sem castelos.

 

Que o poema vista de domingo cada dia

e atire foguetes para dentro do quotidiano.

Que o poema vista a prosa de poesia

ao menos uma vez em cada ano.

 

Que o poema faça um poeta de cada

funcionário já farto de funcionar.

Ah que de novo acorde no lusíada

a saudade do novo o desejo de achar.

 

Que o poema dia o que é preciso

que chegue disfarçado ao pé de ti

e aponte a terra que tu pisas e eu piso.

E que o poema diga: o longe é aqui.

publicado por divagares às 10:03

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