divagares

Novembro 06 2014

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É o Raul personagem criada por Leandro Martins. É o Raul que já passou por aqui. Foi uma vítima da guerra colonial, na Guiné. Afinal, o 1º. sargento amigo do pai, (ou do tio?) não o safou de ir morrer na guerra, como se constata no seu discurso. E  conformou-se com a situação.

Sabes o que é que ia agora? Um uísque. Assim meio copo dos grandes, sem água, só gelo até acima. Calor do caraças. Agora ia mesmo a calhar, um gajo sentado numa esplanada, um uísque, uma miúda e tal. Se eu estivesse em casa ia lá ao bar, sem a velha dar conta, ela anda sempre a ver se eu lhe vou às garrafas. Sabes, o meu tio é que as traz, o gajo é embarcadiço, tem daquilo ao preço da chuva. (...) Uma vez até veio com uma caixa pra eu oferecer àquele sargento, lembras-te, quando foi da recruta. O sargento era conhecido do meu tio. Bem, o gajo não prometeu propriamente aquilo de eu ir para amanuense, mas foi quase a mesma coisa, deu esperanças. Afinal o cabrão mamou as garrafas e eu acabei por ir para atirador. Não deu jeito nenhum, ainda pensei que ficasse livre, tive um toque num pulmão quando era pequeno, os gânglios, percebes, a minha mãe ainda falou com o médico, mas apuraram-me. Bem, com o corpo que tenho também era difícil. Um metro e oitenta e seis, noventa quilos, tudo chicha. E depois os testes foi o caraças, sabes que o método dos gajos é americano, eles vêem logo que um gajo é bom para atirador. (...) Ainda pensei que fosse para a polícia militar por causa da altura, mas o tenente Rosa, lembras-te, o comandante lá da minha companhia, na recruta, não tu não te deves lembrar dele. Pois o gajo é que me lixou. Estou convencido que o gajo é que me lixou. Ele não grama os gajos altos, tinha complexos por ser meia-leca. Era um gajo cheio de complexos, foi dos tenentes mais beras que encontrei na tropa. Era o único que mandava a malta entrar na lama toda fardada, lembras-te daquela lagoa de lama, atrás do pinhal? Só a minha companhia é que lá entrava toda fardada.

Espera aí. Vamos beber uma gasosa. Calor do caraças, pá, estou a suar que nem um cavalo, eu cá desidrato com facilidade. Na Guiné tenho de andar sempre com aquele comprimido de sal. A não ser que aquilo não seja assim tão quente como dizem, às vezes a malta exagera. Bem, pelo menos em África pode-se beber uísque mais barato. E do bom, pá. Cerveja é que não. Faz um estômago do caraças. E a mim azeda-me, vem-me o amargo à boca, nunca me habituei à cerveja. Nem ao vinho. Vinho só do bom, um vinho francês. Uma vez bebi vinho francês numa festa em casa de um gajo com pasta. Aquilo é que era vinho. Nem o Dão se comparava. Mas não sou gajo assim de beber.

(...) Ainda o que me faz mais diferença em ir para a Guiné é a comida. Parece que às vezes se fica muito tempo isolado, fica-se a feijão. Se a malta tiver o azar de ir para uma zona onde os turras controlam vai ser tramado. No outro dia falei com um gajo que voltou de lá, diz que o PAIGC tem uma série de zonas em que a malta nem se arrisca a sair, fica no quartel meses a fio até ser rendido. É por isso que os gajos ligam tanto a este curso de minas e armadilhas, estou convencido que é por isso. Tem de se minar os acessos aos aquartelamentos e se a companhia sair tem de se ter um cuidado do caraças a picar o terreno. É claro que picar não é a malta que vai picar o terreno, isso são os soldados que vão à frente. Sabes que um gajo a picar o terreno não aguenta mais que vinte minutos? Perde a sensibilidade. Também não admira, com a tensão a que se está sujeito. A malta devia ter é como os americanos, aqueles aparelhos que detectam o metal, mas a malta não tem nada disso, resolve-se tudo com a prata da casa. E mesmo que tivéssemos esses aparelhómetros às vezes não serve de nada, já viste aquelas minas russas, já viste?, o aspirante mostrou-as a semana passada, minas de cartão forradas com alcatrão, aquilo não é detectado e se um gajo lhe enfiar o sabre, fura-as e não sente nada. O pior é que rebentam à mesma, o princípio é o mesmo.

Por acaso é pena a malta ir para a Guiné. Ainda cheguei a pensar que não era mobilizado, tive boa nota no curso, em princípio não era mobilizado, se fosse seis meses antes não era mobilizado, mas parece que aquilo em África está cada vez a aquecer mais, tanto na Guiné como em Angola e em Moçambique, aquilo está outra vez feio. Mas se um gajo fosse para Moçambique, ou para Angola, sempre há zonas em que não se entra no barulho, é só estar ali vinte e tal meses a ganhar o cacau. 

(...)

Então eu, porra: primeiro pensava que nem ia à tropa. E já têm sido livres outros, é preciso é agarrar uma cunha boa. Mas falhou. Depois foi aquilo de ir para amanuense. Falhou por um triz, disse-me o sargento, mas não sei se o gajo o que queria era mamar as garrafas de uísque. (...) O chato foi isto de ir para a Guiné. (...) Um gajo com um curso, se ficar a conhecer a matéria bem, não é assim tão mau, pá, a malta não está sempre a encalhar nas minas, isso também é conversa deles. E se um gajo levanta uma mina são logo quinhentos dele. Um gajo vê logo: ou é perigoso e rebenta-se com ela, ou então vê-se que ela não está armadilhada, levanta-se a mina e recebe-se o cacau.

Agora junta-lhe o vencimento; faz as contas: pelo menos vinte meses, um gajo tem metade da massa posta cá na metrópole. Lá não se gasta por aí  além, uns copos e tal. Então na Guiné, não há em que gastar o dinheiro.

(..)

Quando voltar da Guiné já tenho alguns planos. Compro umas coisas para a casa. O meu tio já me disse que nessa altura me arranja um emprego porreiro num  gabinete de estudos de mercado dum gajo amigo dele. Sabes, estudos sobre vendas e coisas assim, não é preciso grande especialidade, é preciso é ser esperto, aquilo um gajo faz-se depressa. O ordenado não é nada mau logo de entrada e depois um gajo sobe. Quando tiver o tal emprego e tal, caso-me. Não com aquela miúda, não, acabei com aquilo. Logo se vê. Não, a malta não se dava mal, eu é que não quero um par de cornos. Tu desculpa, és casado, mas isso, é claro, é diferente, um casal é diferente, embora haja casos, bem, isso depende das pessoas, claro. Mas agora um gajo não é casado, percebes, passam dois anos, um gajo sabe-se lá como é que vem. E a miúda não vai ficar aí às moscas. Se fosse casado era diferente, mas eu não ia agora casar-me antes de ir. 

publicado por divagares às 20:57

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