divagares

Outubro 07 2014

Subimos os dois as ruas mansas na direcção do quartel, perguntando o caminho aos cidadãos que paravam a olhar-nos com piedade. Ao fim de quase uma hora abordámos os muros do quartel: pelo chão dos passeios, centenas de rapazes sentavam-se em cima das malas, empreendiam a tarefa fácil que é o conhecimento nos verdes anos e havia encontros-surpresa de tipos que não se viam desde a escola primária.

Os silêncios tombavam às vezes, gerais, pelo cansaço, pela espera, ou porque o sargento vinha mandar entrar mais uma leva. Teciam-se graves conversas sobre o futuro e a sorte e as receitas desenrascadas para horas tristes. O Raul também lá estava, enorme e cheio de gestos - o tio, amigo de um sargento, prometera fazer dele um amanuense recatado a passar quatro anos preguiçando em Lisboa, sem perigo de guerra. Um ano mais tarde, o grande Raul sacudiu-se da poeira vermelha da Guiné e tocou ao de leve no fio de tropeçar que ele próprio estendera. Voou em pedaços, segundo me contaram. Só ficou o tronco e a cabeça e, no largo tempo que demorou a morrer, conseguiu despejar algumas palavras no gravador do Aleixo, a despedir-se da mãe e da avó. A vila de onde ambos viéramos fez-lhe um enterro nacional e o caixão passou mesmo defronte ao café onde tempos antes o Raul nos confundia com o seu optimismo, perdendo às moedas o dinheiro que a família lhe dava para as propinas.

publicado por divagares às 15:41

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