divagares

Outubro 03 2014

"Quando esta história aconteceu, a Quinta do Anjo era ainda uma pequena aldeia rural, junto a uma extensa mancha verde de pinheiros que se estendia para Norte até quase às margens do Tejo. Na cordilheira da Arrábida, que se ergue para o Sul, ainda alguns moinhos de vento, implantados na crista da serra, transformavam em farinha o trigo ou o milho levados no dorso dos animais.

Havia já nesse tempo uma pequena indústria de carnes que ocupava parte dos seus habitantes. Mas a principal actividade local era a agricultura.

Era um lugar sereno e pacífico onde parecia não chegar a turbulência do mundo. Eu tinha mudado para ali a casa ilegal do Partido onde vivia com a minha companheira e o filho pequeno.

Era um primeiro andar com entrada por um pátio, um destes pátios comuns em muitas aldeias. Nos baixos da nossa casa havia um celeiro onde o senhorio guardava o trigo. Era um homem afável, pequeno comerciante com estabelecimento no largo da terra e para além do comércio tinha também, nos arredores, algumas terras de cultivo, principalmente hortas. Os nossos vizinhos, habitantes do pátio, eram todos eles (ou quase todos) assalariados do nosso senhorio.

O aluguer da casa não fora difícil; nem houve dificuldades em encontrar justificação: eu era empregado da fábrica de cimentos Secil, em Setúbal, e vinha transferido de Lisboa para trabalhar na zona.

Estava no fim o ano de 1944. A II Guerra Mundial entrava na sua fase crítica de viagem.

Os abastecimentos à população pioravam. O racionamento tinha desencadeado as grandes greves de 8 e 9 de Maio,ferozmente reprimidas. Era difícil obter alimentos, mas era ainda mais difícil para os quadros clandestinos com poucos recursos e impossibilitados de usar as senhas.

Passávamos muitos dias com pouca comida e nenhum pão. E era pior ainda quando havia crianças...

De nossa janela observámos um dia que o senhorio pagava parte do salário aos seus trabalhadores com trigo; e que estes levavam o trigo a moer aos moleiros da serra e depois coziam o pão num forno comum existente no pátio. Semana a semana assistíamos impotentes, da nossa janela, àquela tentação, muitas vezes sem termos pão em casa.

Um dia tomámos uma decisão: Procurei o senhorio e disse-lhe:

- O senhor é que me podia resolver um grande problema...

- Se puder... - respondeu o senhorio.

E avancei com a explicação pensada durante dias:

- Como sabe, vim transferido de Lisboa para esta região há pouco tempo e não sei se vou ficar em definitivo. Tenho ainda o racionamento em Lisboa de onde trago os géneros de tempos a tempos. Mas o pior é o pão, que endurece...

- Diga, diga - insistiu o senhorio.

- Queria que o senhor Silva me fizesse o favor de vender trigo até eu resolver este assunto. Temos um filho pequeno e às vezes há dificuldade no pão.

- Está resolvido - respondeu o senhorio - diga só quanto precisa.

(...)

Tudo parecia ter sido resolvido. Só que...

Alguns dias depois o senhorio procurou-me e disparou o seguinte:

- O senhor Carlos é que também me podia resolver um problema.

-Eu? - surpreendi-me.

- Sim, senhor! Como sabe há muita dificuldade em arranjar cimento no mercado. Preciso de ampliar o tanque de rega da horta. E vocês lá na fábrica às vezes conseguem arranjar algum cimento para os amigos...

E acrescentava intencionalmente:

- Estou disposto a pagar o que for preciso...

Fiquei siderado. Como ia livrar-me daquela dificuldade? Não seria uma tentativa de saber se eu era ou não empregado na Secil?

Não tinha outra alternativa senão ganhar tempo. Com o maior à-vontade que me foi possível fui dizendo:

- Todos sabemos que há muito negócio negro. Mesmo no cimento. Mas eu não quero meter-me nisso. Vou ver se encontro algum colega que resolva o assunto. Só se não puder...

(...)

Tinha sempre uma forma dinâmica e optimista de encontrar saídas para qualquer dificuldade.

(...)

Quando me encontrei com o Salvador Amália, ao tempo responsável pela organização de Setúbal, dei-lhe conta da situação, mas não lhe disse que era eu próprio que estava em dificuldade.

Disse-lhe, sim, que era uma casa ilegal na região onde morava outro camarada.

- Mas talvez se possa arranjar o cimento! - disse o Salvador - Quantos sacos quer

- Pediu 1.200 sacos, mas bastam 100 ou  200 para resolver o assunto.

Então o Salvador lembrou:

- Como sabes eu e o meu irmão temos uma pequena fundição. Trabalhamos também para a Secil e temos contas a receber. Dizemos que é para obras na oficina...

- O pior é a entrega! - objectei. - Como fazer chegar o cimento sem deixar rasto?

- Também há solução! - retorquiu o Salvador. Vamos pôr o cimento no lugar de hortaliça da minha mãe. Eles depois vão lá buscá-lo!

Concordei. Depois, quando falei com o senhorio pus com todo o ênfase as seguintes condições:

- Tenho boas notícias, senhor Silva! A muito custo arranjei-lhe 200 sacos de cimento, mas tem de ser em absoluto segredo.

E acrescentei com ar grave:

- Tem de me garantir que quem for buscar o cimento não faz a mínima pergunta. É carregar e vir embora! O senhor depois me paga.

- Com certeza - disse o senhorio - Vou lá mandar o meu filho!

Assim foi. O cimento foi colocado na loja da mãe do Salvador. Uma carroça foi da Quinta do Anjo a Setúbal buscar o cimento. Tudo ficou arrumado.

Daí em diante quem seria capaz de duvidar na Quinta do Anjo ser eu empregado da Secil? Se até tinha arranjado cimento para o senhor Silva!...

E desta forma o Salvador Amália, foi, efectivamente o Salvador daquela casa do Partido."

Do livro histórias clandestinas, de Joaquim Campino.

A propósito de uma tarefa que me foi solicitada pela delegação de Setúbal da URAP, fiz a releitura da história O Salvador, de Joaquim Campino destacado lutador clandestino contra a ditadura de Salazar e Caetano. Outro, dessa gesta, foi o setubalense Salvador Amália, "personagem" desta história, que conheci de perto - estabeleci contactos com ele em 1972 - e com quem me relacionei até à sua morte.

 

 

publicado por divagares às 20:55

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