divagares

Novembro 11 2015

pablo-neruda.jpg

Quase cinquenta anos

a caminhar

contigo, Poesia.

Ao princípio

enleasvas-me os pés

e eu caía de borco

na terra escura

ou enterrava os olhos no charco

para ver as estrelas.

Mais tarde estreitaste-me

com os dois braços da amante

e subiste

pelo meu sangue

como uma trepadeira.

No minuto seguinte

convertias-te em taça.

 

Belo

foi

ires escorrendo sem te consumires,

ires entregando a tua alma inesgotável,

ires vendo que uma gota

caía sobre um coração queimado

e dessas mesmas cinzas revivia.

Porém

nem isso me bastou.

Tanto andei contigo

que te perdi o respeito.

Deixei de ver-te como

náiade vaporosa,

pus-te a fazer de lavadeira,

a vender pão nas padarias,

a fiar com as simples tecedeiras,

a bater o ferro na metalurgia.

E vieste comigo

andando pelo mundo,

mas já não eras

a florida

estátua da minha infância.

Falavas

agora

com voz férrea.

As tuas mãos

foram duras como pedras.

O teu coração

foi um abundante

manancial de sinos,

fizeste para mim pão com fartura,

ajudaste-me

a não cair de borco,

procuraste-me

companhia,

não uma mulher,

não um homem,

mas milhares, milhões.

Juntos, Poesia,

fomos

ao combate, à greve,

ao desfile, aos portos,

à minas,

e eu ri-me quando saíste

com a testa suja de carvão

ou coroada com serrim fragrante

das serrações.

Já não dormíamos na estrada.

Esperavam-nos grupos 

de operários com camisas

recém-lavadas e bandeiras vermelhas.

 

E tu, Poesia,

até aí tão desgraçadamente tímida,

marchaste

à cabeça

e todos

se habituaram ao teu traje

de estrela quotidiana,

pois mesmo que algum relâmpago denunciasse a tua família

tu cumpriste a tarefa,

andando passo a passo com os homens.

Eu pedi-te que fosses

utilitária e útil,

como metal ou farinha,

pronta a ser arado,

ferramenta,

pão e vinho,

pronta,

Poesia,

a lutar corpo a corpo

e a cair esvaída em sangue.

 

E agora,

Poesia,obrigado, esposa, 

irmã ou mãe

ou noiva,

obrigado, onda do mar,

flor branca e bandeira,

motor de música,

grande pétala de oiro,

sino submarino,

celeiro inesgotável,

obrigado

terra de cada um

dos meus dias,

vapor celeste e sangue

dos meus anos,

porque me acompanhaste

da mais enrarecida altura

à simples mesa

dos pobres,

porque puseste na minha alma

sabor ferruginoso

e fogo frio,

porque me ergueste

à altura insigne

dos homens vulgares,

Poesia,

porque a teu lado

enquanto me gastava

tu foste sempre

aumentando essa frescura firme,

esse ímpeto cristalino,

como se o tempo

que a pouco e pouco me converte em terra

fosse deixar correr eternamente

as águas do meu canto.

 

 

publicado por divagares às 11:57

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