divagares

Julho 18 2014

Eu pouco sei de ti mas este crime

torna a morte ainda mais insuportável.

Era novembro, devia fazer frio, mas tu

já nem o ar sentias, o próprio sexo

que sempre fora fonte agora apunhalado.

Um poeta, mesmo solar como tu, na terra

é pouca coisa; uma navalha, o rumor

de abril podem matá-lo - amanhece,

os primeiros autocarros já passaram,

as fábricas abrem os portões. os jornais

anunciam greves, repressão, dois mortos na primeira 

página, o sangue apodrece ou brilhará

ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.

O assassino esse seguirá dia após dia

a insultar o amargo coração da vida,

no tribunal insinuará que respondera apenas

a uma agressão (moral) com outra agressão,

como se alguém ignorasse, excepto claro

os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie

confundem moral com o próprio cu.

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores

como móbil de um crime que os fascistas,

e não só os de Saló, não se importariam de assinar.

Seja qual for a razão. e muitas há

que o Capital a Igreja e a Polícia

de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,

Pier Paolo Pasolini está morto.

A farsa a nojenta farsa essa continua.

 

Eugénio de Andrade

 

 

publicado por divagares às 12:16

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