Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

divagares

divagares

01
Mar21

Revisitando Maria Teresa Horta

divagares
Desobediência

Sou feita de muitos
nós
desobediência e meio- dia
Sou aquela que negou
aquilo
que os outros queriam
Disse não à minha sina
de destino preparado
recusei as ordens escusas
preferi a liberdade
e vivo deste meu lado

safe_image´maria teresa.jpg

 

24
Fev21

Da minha genealogia - A "dinastia" Ferrão

divagares

Esta "dinastia" teve inicio no século XVII no lugar de Quintela, da freguesia e concelho de Seia, com o nascimento de Martinho Ferrão, cerca de 1660, o que está para trás não consegui até ao momento descortinar. Casou na igreja paroquial de S. Romão, vila de Seia no dia 10/02/1686 com Mariana de Sequeira, e tiveram 6 filhos um dos quais António Ferrão, nascido na freguesia de S. Romão daquela vila em Maio de 1689 e viria a falecer de uma enfermidade na garganta, no monte de Racha Capelos da freguesia do Escoural, Montemor-o-Novo, no dia 16/02/1756, tendo sido sepultado na igreja de Santiago do Escoural, havia casado nessa igreja com Natária do Nascimento, natural desta freguesia (a qual depois de enviuvar voltou a casar, com Manoel Saraiva) e tiveram 8 filhos entre os quais Perpétua Maria Ferrão, nascida no sobredito monte em 1739 e casa na igreja de Santiago com Antónío Mendes, tiveram 9 filhos entre os quais José António Ferrão, nascido na freguesia do Escoural em 1764 e casa na sobredita igreja em 1791 com Mariana de S. José, tiveram 7 filhos dos quais José Joaquim Ferrão, nascido na freguesia do Escoural em 1795 e casa na igreja da Sé de Évora em 1822 com Joaquina Rosa, natural da vila de Arraiolos, foram pais de pelo menos 3 filhos (a pesquisa está por concluir), um deles José Manuel Ferrão, nascido na freguesia de São Sebastião da Giesteira em 1830 e casa na respectiva igreja a 10/09/1863 com Sofia da Guia, natural dessa freguesia, de que nasceram 12 filhos, uns em São Sebastião da Giesteira outros no Escoural uma delas foi Conceição Maria tb Conceição de Jesus Ferrão vulgarmente sempre tratada pelo nome Conceição Ferroa, nascida em Junho de 1880 no monte da Carvoeira da freguesia do Escoural e falecida na vila do Escoural a 15/07/1962, juntou-se com Pedro Sarilho, nascido em 1880 na freguesia do Escoural e aí falecido em 1947, tendo vivido sempre em união de facto, tiveram dois filhos, uma delas foi Bernardina Maria Sarilho, pelo lado materno, uma Ferrão apesar de não ter esse apelido no nome. Esta última é a minha mãe. Descendentes dos irmãos da minha avó materna continuam na actualidade a dar continuação ao apelido Ferrão.

Esta é uma pequena parcela da minha história genealógica que abarca um período de 361 anos.

22
Fev21

Palestina, Sempre!

divagares
Apelo à presidência portuguesa do Conselho da União Europeia pelo reconhecimento do Estado da Palestina

Correspondendo a uma iniciativa do MPPM, um número significativo de individualidades representativas dos mais variados sectores da vida portuguesa subscreveu um Apelo à presidência portuguesa do Conselho da União Europeia para que reconheça o Estado da Palestina nos termos do direito internacional e das resoluções relevantes das Nações Unidas, e para que desenvolva uma acção junto dos outros Estados Membros para que ajam no mesmo sentido.

O Apelo está aberto à adesão de todas as pessoas, individuais e colectivas, que se identificam com a causa do povo palestino aqui:

http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=Palestina-Soberana

Este é o texto do Apelo e a lista de primeiros subscritores:

APELO À PRESIDÊNCIA PORTUGUESA DO CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA
PELO RECONHECIMENTO DO ESTADO DA PALESTINA!

Desde o dia 1 de Janeiro de 2021, para além das obrigações constitucionais que impendem sobre a condução da política externa, o Governo Português assumiu, por um período de seis meses, responsabilidades acrescidas no contexto internacional que decorrem da assunção da presidência rotativa do Conselho da União Europeia.

O Governo Português escolheu como lema para a sua presidência a expressão “Tempo de Agir”, e talvez essa frase seja mesmo a que melhor define o desafio que está colocado a Portugal e à União Europeia.

A questão palestina é um dos processos que de forma mais longa e insistente tem ocupado a agenda internacional e sobre o qual, diga-se, a Europa tem um especial dever moral. Dessa forma, exige-se que Portugal dê um contributo decidido e decisivo em favor da afirmação do primado do direito internacional e do respeito pelos direitos inalienáveis do povo palestino. Direitos esses que foram reafirmados recentemente em várias resoluções da Assembleia Geral da ONU aprovadas por larga maioria.

A União Europeia e o Governo Português, em particular, reproduzem declarações proclamatórias em favor do direito internacional e mantêm, há muito, um discurso favorável à solução de dois Estados.

É imperioso passar das palavras aos actos, dar sentido concreto às declarações formais, sob pena de elas se converterem em instrumento retórico, na prática equivalente a uma cumplicidade mais ou menos velada de violação do direito internacional.

De facto, a situação do povo palestino agrava-se todos os dias. Israel multiplica os abusos e violências, mantém ilegalmente nas suas prisões prisoneiros políticos – muitos sem culpa formada, sem julgamentos –, estende a construção do Muro do Apartheid, intensifica a colonização ilegal do território palestino ocupado em 1967, prossegue a expulsão e limpeza étnica da população palestina.

Até agora, Israel tem gozado da mais absoluta impunidade. Tem, até, um estatuto privilegiado no relacionamento com a União Europeia.

Apesar da recomendação aprovada pela Assembleia da República em Dezembro de 2014, o Governo Português continua a não reconhecer o Estado da Palestina. Tem mesmo intensificado as relações com Israel, incluindo no plano militar.

É “tempo de agir”!

Reclamamos do Governo Português, no respeito do artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa e em conformidade com as resoluções das Nações Unidas, que reconheça o Estado da Palestina nos territórios palestinos ocupados em 1967, com Jerusalém Leste como capital e que desenvolva a cooperação com o novo Estado em todos os planos das relações diplomáticas. 

Reclamamos do Governo Português que, no quadro das suas responsabilidades no âmbito da Presidência do Conselho da União Europeia, prossiga uma política activa e consistente que conduza ao reconhecimento pelos Estados da União Europeia do Estado da Palestina nos termos previstos nas resoluções das Nações Unidas, que têm de constituir o quadro de referência para uma resolução justa da questão palestina.

Reclamamos do Governo Português uma intervenção coerente e determinada no sentido de denunciar a política sistemática de violação do direito internacional por parte de Israel, daí retirando todas as consequências no plano das relações bilaterais com aquele Estado.

Pelo reconhecimento do Estado da Palestina!
Pelo primado do direito internacional!
Pelo fim da impunidade do Estado de Israel!

Lisboa, 16 de Fevereiro de 2021

PRIMEIROS SUBSCRITORES
Adalberto Alves, Escritor, Arabista
Adel Sidarus, Professor Universitário (jubilado), Vice-presidente MPPM
Afonso Cruz, Escritor
Alexandre Abreu, Economista, Professor Universitário (ISEG)
Alice Vieira, Escritora
Ana Luísa Amaral, Poeta, Professor Universitária (FLUP)
Ana Margarida de Carvalho, Escritora, Jornalista
Ana Pires, Dirigente Sindical CESP e CGTP-IN
André Freire, Politólogo, Professor Universitário (ISCTE-IUL)
António Antunes, Cartunista
António Bernardo Colaço, Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça (jubilado)
António Borges Coelho, Historiador
António Vitorino de Almeida, Maestro, Compositor
Augusto Flor, Antropólogo, Dirigente Associativo Nacional
Frei Bento Domingues, Teólogo Dominicano, Vice-presidente do MPPM
Boaventura de Sousa Santos, Sociólogo, Professor Universitário (jubilado)
Bruno Gonçalves, Técnico Superior de Animação Sócio-Educativa
Capicua, Rapper
Carlos Almeida, Historiador (FLUL), Vice-presidente do MPPM
Carlos Matos Gomes, Coronel do Exército (na reserva)
Chullage, Rapper
Cláudio Torres, Arqueólogo, Dir. Campo Arqueológico Mértola
Deolinda Machado, Dirigente Sindical e da LOC
Fernando Ribeiro, Músico, Vocalista dos Moonspell
Fernando Rosas, Historiador, Professor Universitário (Nova FCSH)
Francisco Fanhais, Músico, Presidente da Associação José Afonso
Helder Costa, Autor, Encenador
Heloísa Apolónia, Jurista
Ilda Figueiredo, Economista, Presidente do CPPC
Inocência Mata, Investigadora, Professora Universitária (FLUL)
Isabel Allegro Magalhães, Professora Universitária (jubilada), Membro do Graal
Isabel Barbosa, Enfermeira, dirigente sindical
Isabel Camarinha, Secretária-Geral da CGTP-IN
D. Januário Torgal Ferreira, Bispo Católico
Joana Villaverde, Artista plástica
João Rodrigues, Economista, Professor Universitário (U. Coimbra)
João Veloso, Professor Universitário (FLUL), Pró-Reitor Universidade do Porto
Jorge Palma, Músico
José Barata-Moura, Filósofo, Professor Universitário (FLUL)
José Luís Borges Coelho, Maestro
José Manuel Goulão, Jornalista
José Neves, Fundador do Partido Socialista
José Pinho, Presidente da Associação de Estudantes da NOVA-FCSH
Luís A. Noronha do Nascimento, Juiz Conselheiro (jubilado)
Luísa Macedo, Presidente da Associação de Estudantes da Escola Artística António Arroio
Luísa Sarsfield Cabral, Professora de Português (aposentada)
Madalena Santos, Jurista, Presidente da Associação Portuguesa de Juristas Democratas
Mamadou Ba, Presidente do SOS Racismo
Manuel Gusmão, Poeta, Ensaista
Manuel Martins Guerreiro, Almirante (na reserva)
Maria do Céu Guerra, Actriz e Encenadora, Presidente do MPPM
Maria Helena Pato, Professora (aposentada)
Maria Manuela Tavares, Investigadora (ISCSP), Dirigente da UMAR
Marília Villaverde Cabral, Membro do Conselho Directivo da URAP
Mário Moutinho de Pádua, Médico
Mário Nogueira, Secretário-Geral da FENPROF
Miguel Vale de Almeida, Antropólogo, Professor Universitário (ISCTE-IUL)
Paula Nunes da Silva, Engenheira Florestal, Presidente da Quercus
Pedro Pezarat Correia, General do Exército (na reserva)
Pedro Tadeu, Jornalista
Pilar Del Rio, Jornalista, Presidenta da Fundação José Saramago
Regina Marques, Professora do Ensino Superior, Dirigente do MDM
Ricardo Paes Mamede, Economista, Professor Universitário (ISCTE-IUL)
Rita Lello, Actriz
Rui Namorado Rosa, Professor Universitário (jubilado)
Rui Vieira Nery, Musicólogo, Professor Universitário (Nova FCSH)
Vasco Lourenço, Coronel do Exército (na reserva)

21 de Fevereiro de 2021
A Direcção Nacional do MPPM

12
Jan21

No próximo dia 22 de Janeiro Jaime Serra fará 100 anos!

divagares

jaime serra.jpg

Jaime Serra, é indiscutivelmente uma legenda da resistência e da luta-antifascista. Foi um dos heróis que se evadiram do forte/prisão de Peniche na célebre fuga de Janeiro de 1960, uma das várias fugas que protagonizou.

Conheci-o só depois do 25 de Abril de 1974 e, tive o privilégio de trabalhar com ele vários anos, o que muito me enriqueceu.

Desta forma singela lhe presto desde já a minha homenagem.

07
Jan21

João Ferreira, soma apoios à sua candidatura

divagares

ex-presos.jpg

Mais de 170 ex-presos políticos antifascistas apoiam João Ferreira:

Adelino Pereira da Silva • Adilo Costa • Afonso Rodrigues • Aguinaldo Cabral • Albino Oliveira • Alexandre Jorge Almeida • Alexandre José Pirata • Alfredo Guaparrão • Alfredo Matos • Alice Capela • Álvaro Monteiro • Álvaro Pato • Amélia Esteves • Américo Joaquim Braz • Américo Leal • Ana Abel • António Antunes Canais • António Borges Coelho • António Cachola Alcântara • António Cerqueira • António Espírito Santo • António Figueira Mendes • António Graça • António Inácio Baião • António Inácio Sanguinheira Caetano • António João Mendes dos Santos • António Joaquim Azevedo Ferreira Lopes • António Lenine Moiteiro • António Lino • António Rodrigues Canelas • António Velhinho Ventura • Apolónia Teixeira • Aprígio Moreira de Sousa • Armando Tavares • Armando Teixeira • Arménio Marques Gil • Bárbara Judas • Beatriz Matias • Benilde Alves Viana • Bento Gonçalves Serrano • Bernardo Vilas Boas • Carlos Coutinho • Carlos Marum • Carlos Myredores • Carlos Nelson Amador • Clemente Alves • Conceição Matos • Daniel Cabrita • Domingos Abrantes • Domingos Carmona Afonso Coelho • Domingos Félix • Domingos Oliveira • Duarte Nuno Clímaco Pinto • Eduardo Baptista • Eduardo Ferreira • Eduardo Meireles • Encarnação Raminho • Estevão António Pazes Caeiro Oca • Eugénio Pinto Basto • Eugénio Ruivo • Faustino Reis • Feliciano David • Fernando Adão • Fernando Chambel • Fernando Correia • Fernando Cortez Pinto • Fernando Flávio Espada • Fernando José Oliveira Pereira • Fernando Libório • Fernando Miguel Bernardes • Firmino Martins • Francisco Braga • Francisco Bruto da Costa • Francisco Carrasco dos Santos • Francisco do Carmo Martins • Francisco Lobo • Francisco Melo • Francisco Nilha Jorge • Francisco Pinheiro • Gilberto Henriques da Silva • Gina Azevedo • Graça Erika Rodrigues • Herculano Neto Silva • Humberto Rui Ramos Moreira • Jaime Fernandes • Jaime Serra • João Carrasco Caeiro • João Carvalho Pereira • João Louro • João Queiroz • João Viegas dos Santos • Joaquim Henrique Rodrigues • Joaquim Judas • Joaquim Labaredas • Joaquim Manuel Nogueira Carvalhal • Joaquim Santos • Jorge Araújo • Jorge Carvalho • Jorge Seabra • Jorge Vasconcelos • José Alberto Martins • José Carlos Almeida • José Cuco da Silva • José Dias dos Santos Guerreiro • José Duarte da Silva Vaz Teixeira • José Eduardo Baião • José Eduardo Brissos • José Eduardo Conceição Barbosa • José Ernesto Cartaxo • José Marques • José Oliveira • José Pedro Soares • José Revez • José Ribeiro Sineiro • José Tavares Marcelino • José Teodósio Cachochas • Lígia Calapez Gomes • Lindolfo Sopa • Luís Firmino • Luís País Figueiredo • Luísa Oliveira • Manuel Augusto Araújo • Manuel Custódio de Jesus • Manuel da Silva Carvalho • Manuel dos Reis Avoila • Manuel dos Santos Guerreiro • Manuel Ferreira Gonçalves • Manuel Henrique Estevão • Manuel Joaquim Braz • Manuel Maria Candeias • Manuel Moita Baião • Manuel Pedro • Manuel Pedro Baião • Manuel Policarpo Guerreiro • Manuel Quinteiro • Manuel Ramalho • Manuel Ruivo • Manuel Silva Abraços • Manuela Bernardino • Maria Artur Botequilha • Maria da Cruz Varela Gomes • Maria das Neves Martins • Maria Emília Miranda Sousa • Maria Eugénia Varela Gomes • Maria Helena Rocha Soares • Maria Hermínia Sousa Santos • Maria Isabel Areosa Feio de Barros • Maria José Ribeiro • Maria Lourença Cabecinha • Mário Abrantes • Mário Alves • Mário Araújo • Mário de Carvalho • Matilde Bento • Miguel Guimarães • Modesto Navarro • Nuno Luís Silva • Olinda Pinto • Óscar Vieira • Rafael Galego • Ramiro Antunes Raimundo • Ramiro Marvão • Raul de Jesus Carvalho • Raul Teresa Rosa • Rosinda de Jesus Carvalho Carreira • Sérgio Hilário do Ó • Sérgio Ribeiro • Teresa Dias Coelho • Ursula da Conceição Farinho • Vasco Paiva • Victor Zacarias • Virgílio Mestre • Vítor Agostinho • Vítor Dias

05
Jan21

A morte do escultor

divagares

João Cutileiro, 1937-2021.

Escultor, que trabalhou a pedra com mestria e deixou uma vasta obra. Democrata, antifascista logo no tempo da sua juventude que deixa um lugar vazio entre nós.

mamografias-por-joao-cutileiro-2.jpeg

 

27
Dez20

Beethoven, nasceu há 250 anos

divagares

Beethoven: tempos revolucionários

por Michael Roberts [*]

É o 250º aniversário do nascimento de Ludwig Beethoven, nascido em 16 ou 17 de Dezembro de 1770 (ninguém tinha certeza do dia, nem ele próprio). Beethoven é considerado o mais musicalmente revolucionário dos compositores "clássicos". E, na minha opinião, isto não é um acidente da história porque Beethoven foi um homem do seu tempo.

Nasceu na época do que foi chamado de 'iluminismo', quando o pensamento europeu rompeu com a subserviência à religião e à monarquia e ergueu a bandeira do pensamento livre, da ciência e da democracia – e houve os primeiros vislumbres de uma nova ordem económica baseado no 'livre comércio e concorrência'. Adam Smith publicou sua obra seminal, A riqueza das nações, quando Beethoven tinha seis anos. E aconteceu a guerra de independência americana, na qual os antigos colonos britânicos romperam com a monarquia britânica, com o apoio financeiro e militar da França, para estabelecer uma república com direito a voto, exercida já no mesmo ano.

Na minha opinião, a jornada musical de Beethoven oscilou com os altos e baixos deste tempo revolucionário que continuou ao longo de sua vida, mas particularmente com os fluxos e refluxos da Revolução Francesa que liquidou a monarquia, os direitos feudais e proclamou igualdade, liberdade e fraternidade para todos (os homens). Enquanto adolescente, Beethoven, como muitos outros jovens "médios" na Europa, foi desde o início um forte apoiante da revolução.

Filho de um músico de uma família de origem flamenga, seu pai, Johann, trabalhava para a corte do Arcebispo-Eleitor de Bonn, na Alemanha. Ele fez sua primeira apresentação pública aos sete anos e mudou-se para Viena em 1792 para estudar com Joseph Haydn, o qual, com Mozart (falecido no ano anterior aos 35 anos), havia moldado a tradição musical da cidade.

Viena estava sob o domínio do império absolutista dos Habsburgos. Mas Beethoven estava envolto em ideias napoleónicas de liberdade. Ele se tornou um republicano convicto e, tanto nas suas cartas como nas suas conversas, falava frequentemente da importância da liberdade. Ele não se importava com a realeza. A um de seus primeiros patronos, o Príncipe Karl Lichnowsky, Beethoven escreveu: "Príncipe, o que você é, você nasceu por acidente; o que sou, devo-o a mim mesmo". O monarca austríaco, Franz II, alegadamente recusou-se a ter qualquer coisa a ver com Beethoven, com base em que havia "algo revolucionário na [sua] música". E a amizade do compositor com o grande escritor e poeta alemão Goethe terminou abruptamente em 1812 quando, ao caminharem juntos no parque, encontraram a Imperatriz austríaca. Goethe curvou-se subservientemente; Beethoven virou as costas com desdém.

Este espírito revolucionário habita grande parte da sua obra. Ele impulsionou a música para esta nova era. Reunindo o poder poético da cena literária alemã e as canções francesas da revolução, ele mudou completamente o que poderia ser a música. " Beethoven é o amigo e contemporâneo da Revolução Francesa e a ela permaneceu fiel mesmo quando, durante a ditadura jacobina, humanitários com nervos fracos do tipo Schiller abandonaram-na, preferindo destruir tiranos no palco com a ajuda de espadas de papelão. Beethoven, aquele génio plebeu, que orgulhosamente virou as costas a imperadores, príncipes e magnatas – esse é o Beethoven que amamos pelo seu optimismo inexpugnável, sua tristeza viril, pelo pathos inspirado da sua luta e pela sua vontade de ferro que lhe permitiu agarrar o destino pela garganta" (Igor Stravinsky). Beethoven mudou a maneira como a música era composta e ouvida. Sua música não acalma, mas choca e perturba.

Penso que podemos dividir a obra musical de Beethoven em quatro períodos que correspondem aos altos e baixos económicos e sociais da sua vida. Ele atravessou a época de três grandes revoluções burguesas: a industrial na Inglaterra; a política em França; e a filosófica na Alemanha. O primeiro período da sua vida como menino e depois como jovem adulto foi durante uma ascensão revolucionária na Europa; mas também uma nova ascensão económica no desenvolvimento capitalista, levando ao culminar da Revolução Francesa com a ascensão da radical administração jacobina em 1792, quando Beethoven tinha 22 anos.

O segundo período, de 1792 a 1815, foi realmente um retrocesso para a revolução em França pois os jacobinos foram derrubados e o herói da defesa militar do governo revolucionário, Napoleão Bonaparte, tornou-se ditador. Mas isso também significou que os exércitos de Napoleão levaram as ideias e leis da Revolução Francesa a toda a Europa, derrubando as monarquias absolutas semi-feudais reaccionárias da Áustria, Espanha, Itália e Prússia. Suas vitórias tornaram-no um ídolo aos olhos de Beethoven.

Foi neste período que um Beethoven em amadurecimento compôs algumas de suas maiores obras. Sua magnífica 5ª sinfonia é cheia de referências à música da revolução. Na sua composição, Beethoven comenta que a sua sinfonia exprime as palavras escritas acerca do assassinato do líder revolucionário francês Jean-Paul Marat: "Juramos, de espada na mão, morrer pela república e pelos direitos humanos". Sua única ópera, Fidelio, conta a história de uma mulher solitária que libertou o marido, um prisioneiro político, de uma prisão espanhola (o cenário foi transferido da França por motivos políticos, motivos que incluíam seu ódio ao regime na Espanha).

Um espírito revolucionário move toda a Quinta [Sinfonia]. Os famosos compassos de abertura desta obra ( ouça ) são talvez a abertura mais marcante de qualquer obra musical da história. Por coincidência, eles são o equivalente musical do sinal em código Morse para "V" que significa vitória, usado para reunir o povo francês na luta contra os ocupantes alemães na 2ª Guerra Mundial. "Isto não é música; é agitação política. Está a dizer-nos: o mundo que temos não é bom. Vamos mudá-lo! Avante!" (Nikolaus Harnancourt, maestro).

Outro famoso maestro e musicólogo, John Elliot Gardener, descobriu que todos os temas principais das sinfonias de Beethoven são baseados em canções revolucionárias francesas. O "brado de alarme", "Marchons, marchons" de "La Marseillaise", o apelo da Revolução Francesa, ecoa nos acordes de abertura da sinfonia "Eroica". O Quinto Concerto para Piano ("Imperador") exala "energia militar". As passagens da trombeta em Fidelio ecoam aquelas no Messias de Handel que ocorrem sob a linha vocal "a trombeta soará ... e todos nós seremos transformados ".

Mas este grande período de energia musical foi cada vez mais prejudicado pela terrível e tormentosa doença de Beethoven, pois gradualmente foi ficando surdo, possivelmente com um tipo de meningite – a qual afectava sua audição. Isto começou quando ele tinha 28 anos e estava no auge da fama. Embora não tenha ficado completamente surdo até seus últimos anos, a consciência da sua condição deteriorada tornou-o imprevisível, deprimido e mesmo suicida.

Havia também uma deterioração na economia da Europa a partir de 1805, principiando com o bloqueio das conquistas francesas pelo poder naval britânico após a vitória da sua marinha em Trafalgar, criando uma crescente escassez de alimentos e produtos básicos. E Beethoven também estava deprimido com os acontecimentos políticos desse período. Ele havia dedicado sua 3ª sinfonia a Napoleão. Mas em 1802 a opinião de Beethoven sobre Napoleão começava a mudar. Numa carta a um amigo escrita naquele ano, escreveu indignado: "Tudo está a tentar deslizar outra vez para o velha padrão depois de Napoleão ter assinado a Concordata com o Papa". A admiração de Beethoven finalmente se transformou em ressentimento quando em 1804 Napoleão se proclamou imperador. Quando Beethoven recebeu a notícia destes acontecimentos, ele com furiosamente riscou sua dedicatória a Napoleão na partitura da sua nova sinfonia. O manuscrito ainda existe e pode-se ver que ele atacou a página com tal violência que nela abriu um buraco. Dedicou então a sinfonia a um herói anónimo da revolução: tornou-se a sinfonia Eroica.

O terceiro período da vida musical de Beethoven correspondeu a uma época de profunda reacção e a uma retracção chocante nas economias europeias. Com a derrota de Napoleão em 1815 e com as antigas monarquias restauradas na Europa, Beethoven estava em desespero, compondo pouco. Por toda a parte o pensamento progressista estava em recuo: os grandes poetas românticos da Inglaterra vitoriosa, Shelley e Byron, foram forçados ao exílio. Mary Shelley escreveu Frankenstein, um romance que se desespera com a superstição fanática e com o racismo, assim como com o antagonismo em relação ao industrialismo científico descontrolado da economia capitalista em ascensão. Isto era o fim do romantismo e da revolução e agora era a hora de gente como David Ricardo, mais ou menos da mesma idade de Beethoven, que em 1817 escreveu seus Princípios de Economia Política e Tributação, a obra definitiva da teoria económica burguesa, uma ode ao capitalismo.

Os anos 1816-19 foram terríveis para os povos da Europa, não muito diferentes deste ano da COVID em 2020. A economia europeia caiu num inverno permanente, tanto literal como economicamente. O ano de 1816 é conhecido como o 'Ano sem Verão' (também o Ano da Pobreza) [NR] devido a graves anormalidades climáticas que fizeram com que as temperaturas na Europa caíssem para mais intenso nível de frio já registado. Houve colheitas fracassadas. Isto resultou em grande escassez de alimentos. Na Alemanha, a crise foi severa. Os preços dos alimentos aumentaram drasticamente por toda a Europa. Embora os distúrbios fossem comuns em tempos de fome, os distúrbios por comida de 1816 e 1817 registaram os mais altos níveis de violência cívica desde a Revolução Francesa. Foi a pior fome da Europa continental no século XIX.

A sufocar na atmosfera reaccionária de Viena, e ansioso por qualquer mudança para melhor, Beethoven escreveu: "Enquanto os austríacos tiverem sua cerveja castanha e salsichas, eles nunca se revoltarão".

No entanto, a década final da vida de Beethoven, a partir de 1820, viu um renascimento na economia europeia, à medida que o modo de produção capitalista se espalhava e a indústria começava a impor-se numa Alemanha e Áustria predominantemente rurais. Na verdade, houve a primeira crise económica capitalista em 1825; e mais tarde os primeiros sinais de luta proletária que finalmente em 1830 levaram à restaurada derrubada da monarquia Bourbon em França e ao Reform Act de 1832 na Inglaterra, permitindo aos homens adultos em melhor situação o direito ao voto pela primeira vez.

E em 1824 Beethoven apresentou sua obra-prima final antes de morrer, em 1827. Beethoven estava há muito tempo a considerar a ideia de uma sinfonia coral e tomou como texto seu a Ode à Alegria do poeta alemão Schiller, que ele conhecia desde 1792 e fora publicada originalmente em 1785, tirada de uma canção báquica (drinking song) de republicanos alemães. Na verdade, Schiller originalmente considerara chamar a música de Ode à Liberdade (Freiheit), mas devido à enorme pressão das forças reaccionárias, ele mudou a palavra para Alegria (Freude). Estas palavras de Schiller tornaram-se a peça central da nona sinfonia (que agora é usada pela União Europeia como o seu hino). https://www.youtube.com/watch?v=Jo_-KoBiBG0

A nona sinfonia foi chamada de A Marselhesa da Humanidade. Beethoven revive o som do optimismo revolucionário. É a voz de um homem que se recusa a admitir a derrota, cuja cabeça permanece erguida na adversidade .

16/Dezembro/2020

 

[NR] O "Ano sem Verão" é atribuído à erupção do vulcão Mount Tambora, na actual Indonésia, em 1815.   Estima-se que tenha ejectado mais de 160 quilómetros cúbicos de material para a atmosfera.

[*] Economista, autor de Engels 200 ;   The Long Depression ;   The Great Recession ;   Marx 200 - a review of Marx's economics 200 years after his birth ;   World In Crisis: Marxist Perspectives on Crash & Crisis .

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub