Carta ao patrão, Ao Carlos de Oliveira e ao Mário Braga
Parti num dia à aventura
Nesta terra que é madrasta
De ganhões e de malteses.
Sou um servo e um mendigo,
Sei o caminho que sigo,
Sou irmão dos camponeses.
Devo à terra a minha sina
De ganhão e de pastor
Sem courelas e sem gado.
Vivo à margem deste mundo
Como qualquer vagabundo
Que nascesse abandonado.
Aprendi a ser pastor
Por amor à vida simples
Lá nos campos de olivais.
Conheço as aves dos montes
E bebo em todas as fontes
Destes caminhos reais.
Um camponês de Machede
Pegou em mim e levou-me
Para a sua casa do monte.
E toda a gente dizia
Que eu em novo já sabia
Ler a "Maria da Fonte".
Mas não sei ler, meu senhor!
Sou um camponês da terra
Que a amanha e a semeia.
Vivo só e malfadado
E sou pastor do seu gado
Nas noites de lua cheia.
