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divagares

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25
Abr09

TEMPO DA POESIA IV

divagares

 

CALÇADA DE CARRICHE; DE ANTÓNIO GEDEÃO

 

Luisa sobe,

sobe a calçada

sobe e não pode

que vai cansada.

Sobe Luisa,

sobe que sobe

sobe a calçada.

Saiu de casa

de madrugada;

regressa a casa

é já noite fechada.

Na mão grosseira,

de pele queimada,

leva a lancheira

desengonçada.

Anda, Luisa,

Luisa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Luisa é nova,

desenxovalhada,

tem perna gorda,

bem torneada.

Ferve-lhe o sangue

de afogueada;

saltam-lhe os peitos

na caminhada.

Anda, Luisa.

Luisa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Passam magalas,

rapaziada,

palpam-lhe as coxas

não dá por nada.

Anda, Luisa,

Luisa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

Chegou a casa

não disse nada.

Pegou na filha,

deu-lhe a mamada;

bebeu a sopa

numa golada;

lavou a loiça,

varreu a escada;

deu jeito à casa

desarranjada;

coseu a roupa

já remendada;

despiu-se à pressa,

desinteressada;

caiu na cama

de uma assentada;

chegou o hommem,

viu-a deitada;

serviu-se dela,

não deu por nada.

Anda, Luisa.

Luisa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Na manhã débil,

sem alvorada,

salta da cama,

desembestada;

puxa da filha,

dá-lhe a mamada;

veste-se à pressa,

desengonçada;

anda, ciranda,

desaustinada;

range o soalho

a cada passada,

salta para a rua,

corre açodada,

galga o passeio,

desce o passeio,

desce a calçada,

chega à oficina

à hora marcada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

toca a sineta

na hora aprazada,

corre à cantina,

volta à toada,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regrassa a casa

é já noite fechada.

Luisa arqueja

pela calçada.

Anda, Luisa,

Luisa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda, Luisa,

Luisa, sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

 

 

Odete Santos, uma apaixonada pela poesia, declama frequentemente  (quem não se lembra de a ouvir, a meio de um discurso, introduzir um poema, a propósito do assunto que aborda...) sendo recorrente a Calçada de Carriche. Esta foto foi tirada no ISCPS, numa sessão sobre o 25 de Abril, em que a pedido do sr reitor, a Calçada de Carriche foi dita por Odete Santos.

 

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