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12
Mai09

NUNO ALVARES PEREIRA - O QUE REZA A HISTÓRIA

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O Nuno Álvares Pereira foi agora canonizado pelo imperador da igreja romana, cardeal Ratzinger, também baptizado de Bento XVI. A beatice nacional exultou. E até Cavaco Silva manifestou o seu orgulho nacionalista pela grande conquista da pátria lusa.

Se excluirmos a sua fé assolapada, de santo, NAP não tinha coisa que se visse. Era ganancioso, não dava ponto sem nó, era reaccionário até dizer chega.

Segundo Álvaro Cunhal (As lutas de classes em Portugal nos fins da idade média) "foi inegavelmente um guerreiro corajoso, mas está por provar que tenha sido o grande general dos exércitos plebeus, o seu organizador e o seu estratega, o artífice das suas grandes vitórias".

Fernão Lopes, na sua crónica de D. João I, apesar da glorificação que faz de NAP, não deixou de salientar que "se não fosse o bom senso de alguns próximos, teria mais de uma vez, com as suas bravatas e a sua desmedida vaidade e orgulho, conduzido as forças a derrotas irremediáveis".

Segundo Alexandre Herculano, quando as suas exigências escandalosas não eram atendidas "o santo Nuno Álvares, os mestres das ordens e outros fidalgos, roubavam os mantimentos das povoações por onde passavam (...) comiam e bebiam sem pagar e forçavam as mulheres".

Por sua vez, António Borges Coelho (A Revolução de 1383) refere homens que igualaram NAP: "A revolução teve heróis tanto ou mais significativos". Alguns desse heróis são Álvaro Pais,  principal cérebro do movimento revolucionário; Gil Fernandes, o capitão alentejano sem par; Antão Vasques, heroi de Aljubarrota, capitão de epopeia. AC refere outros nomes de heróis da revolução: Fernão Vasques, um dos grandes heróis populares da nossa história; o cabreiro Gonçalo e o alfaiate Vicente, de Évora; o peliteiro Domingos Anes, de Santarém; o tanoeiro Afonso Eanes Penedo, de Lisboa.

A propósito da batalha de Aljubarrota, ABC, refere que "as recentes escavações que puseram a nu os fossos e armadilhas destruiram o mito de um comandante agraciado com o favor celeste. A superioridade portuguesa estava na justiça da sua causa (...) no uso de uma táctica militar revolucionária, enriquecida com a experência militar dos ingleses, alguns dos quais pelejaram e morreram nos campos de Aljubarrota".

E sobre a batalha de Valverde,  "quando se desenrolam já os combates, as suas tropas estão sem comando e ele, atrás de uns penhascos, a implorar o favor divino" relata FL e ABC adianta que tal atitude "sob o ponto de vista militar, é desastrada e o cronista parece ter disso uma ideia clara".

NAP, quando nomeado fronteiro do Alentejo pelo Mestre de Avis - João I - e recebe deste carta branca para agir no exercício das suas funções, não exitou em restauar o poder dos senhores feudais e repor em funções, os nobres que haviam sido depostos pelo Povo. Isto mesmo é atestado pelos textos de FL. "Uma verdadeira expedição contra-revolucionára, uma expedição de grandes senhores da terra, dos homens directamente atingidos pela revolução plebeia" considera AC.

Ainda,  AC, refere a avidez e ganância de NAP, atestados por numerosos incidentes, conflitos e reclamações.  Um exemplo disso é "quando D. João I lhe duou os direitos de Almada, Nun'Alvares achou pouco e tomou conta, por sua iniciativa e abuso (sancionado depois de uma demanda) dos esteiros de Arrentela e Corroios".

NAP era senhor de Barcelos, Braga e Guimarães, Montalegre e Chaves, Ourém e Porto de Mós, Alter do Chão, Borba e Vila Viçosa, Extremoz e Arraiolos, Montemor-O-Novo e Portel, Almada e Évora-Monte, Monsaraz, Loulé, etc, etc, etc.

Sobre o seu retiro para o convento do Carmo, "a tese mística não explica cabalmente" diz ABC, adiantando que "nessa retirada tem de ver-se também o reconhecimento de uma derrota política".

Chegados aqui, é mais que legítima a interrogação sobre a  santidade de NAP, o tal que, não obstante ter alinhada com as forças da revolução popular, tudo fez para que o poder da nobreza, do clero, dos senhores feudais fosse restaurado, assumindo-se como chefe dessa causa e tornando-se num super latifundiário.

A razão para a promoção a santo, deve-se a um "milagre" de que foi alvo uma senhora Guilhermina, que se queimou quando fritava peixe, e ficou cega. Este acidente ocorreu há relativamente pouco tempo, ou seja, cerca de seiscentos anos depois da morte de NAP.

Diz o Padre Mário de Oliveira: "quem esteve por detrás deste milagre sem ponta por onde se lhe pegue (...) foi nada mais nada menos que a Ordem do Carmo".  Foi nesta ordem que NAP deu entrada quando resolveu abraçar a vida monástica.

Segundo o Padre Mário, Carlos Evaristo, filho da senhora Guilhermina, leigo clericalizado -  tu cá tu lá com os padres carmelitas - foi uma figura importante para o desencadeamento do processo: "quando soube do grave acidente da mãe, terá logo pensado que tinha chegado o momento há muito esperado pelos padres e pelas freiras carmelitas.. A indispensável Miraculada estava finalmente encontrada. Seria a sua própria mãe. Bastaria que um padre carmelita lhe fizesse a cabeça. Os médicos que intervieram e, graças aos quais a senhora Guilhermina hoje vê de ambos os olhos, viram todos os seus cuidados clínicos subalternizados, a favor de uma novena que um frade-padre carmelita foi lá a casa fazer com ela e mais uns quantos ingénuos iguais a ela. A novena invocou, num ritual com tudo de pantomina, os favores do beato Nuno".

O Padre Mário, precisa ainda que  a senhora Guilhermina, a partir daquela novena, foi "proibida, desde a primeira hora, de receber e conversar com jornalistas", tal como fizeram com a irmã Lúcia, pastorinha de fàtima... "Sei do que falo. E por isso escrevo, sem que a mão me trema. E protesto publicamente, de viva voz, sem que a voz me doa" adianta o Padre.

Hoje mesmo, já depois de ter terminado este post, vi o tal Carlos Evaristo na RTP1, no estilo tu cá tu lá no programa do senhor Jorge Gabriel. Fiquei a perceber ainda melhor o que escreveu o Padre Mário no seu diário aberto, www.padremariodemacieira.com.sapo.pt. Agora que ouvi de viva voz o tal Evaristo, não me surpreendo se a senhora Guilhermina fôr "voluntariamente" enclausurada num qualquer convento carmelita...

 

 

 

 

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