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29
Dez10

Centenário da Republica

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Neste ano do centenário da Republica, neste espaço abordei a efeméride mais que uma vez (e já agora, abordei também um outro centenário, o da Revolução Mexicana). Com o findar do ano, terminam as comemorações. Pela minha parte assinalo este "fim" com um poema, de autor não identificado, que ilustra com limpidez o papel de cada um na batalha decisiva que conduziu à vitória de Republica e a parte que, a seguir à vítória calhou a cada um:

 

Canção de um "pé descalço" anónimo

 

Bati-me lá na Rotunda

Heroi eles me chamaram

Pouco tempo decorrido

Nesta prisão me encerraram

 

Meu coração abrasava

De amor pela Democracia

Odiando a Monarquia

Que tanto mal nos causava

A hora da luta esperava

Quando o peito se m'inunda

Duma alegria profunda

Ao ouvir dar o sinal

Desde o começo ao final

Bati-me lá na Rotunda

 

Do Povo o sangue correu

Assim como o dos soldados

Os chefes, esses, coitados

Nenhum deles apareceu

Quando o inimigo cedeu

É que ao Povo se mostraram

Foi então que proclamaram

Essa coisa da "Republica"

E ante a opinião pública

Heroi eles me chamaram

 

Fui heroi porque esqueci

Meu dever de escravizado

Descalço, roto, esfaimado

Os bancos eu defendi

Bem cedo me arrependi

Desse acto ter cometido

Com os doutores eu estava

Mas sem ilusões ficava

Pouco tempo decorrido

 

Com a "revolução" quem lucrou

Foram Camachos e Costas

Todos têm postos e "postas"

O Povo nada ganhou

Do antigo nada mudou

Só p'ra pior aumentaram

Reclamando seriedade

E em nome da Liberdade

Nesta prisão me encerraram.

24
Dez10

Natal é quando um homem quiser!

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Tu que dormes à noite na calçada do relento

numa cama de chuva com lençóis de vento

tu que tens o Natal da solidão do sofrimento

és meu irmão, amigo, és meu irmão.

 

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme

numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

e sofres o Natal da solidão sem um queixume

és meu irmão, amigo, és meu irmão.

 

Natal é em Dezembro

mas em Maio pode ser:

Natal é em Setembro

é quando um homem quiser.

Natal é quando nasce

uma vida a amanhecer.

Natal é sempre o fruto

que há no ventre da mulher.

 

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

tu que inventas bonecas e comboios de luar

e mentes ao teu filho por não os poderes comprar

és meu irmão, amigo, és meu irmão.

 

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

fatias de tristeza em alegre bolo-rei

pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

És meu irmão, amigo, és meu irmão

 

José Carlos Ary dos Santos

 

 

 

 


 

 

 

 

23
Dez10

A minha memória do Natal

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O Natal da minha infância não me traz gratas recordações. Filho de pais assalariados rurais que tinham oito filhos, numa tal família o Natal nunca poderia ser grande coisa. A minha mãe fazia das tripas coração para que uns chocolates fossem distribuídos pelos mais novos (os que ainda não trabalhavam e neste grupo estava eu). Brinquedos estavam fora de questão! Mas, nem em todos os Natais conseguia aquele feito - bastava chover abundantemente! Com chuva não se podia trabalhar. Sem trabalhar não havia salário, (jorna, era assim que chamavam à remuneração que recebiam) e comprar fiado, só o indispensável, era o lema da minha mãe.

Depois, havia o presépio na igreja e a árvore de natal na loja da Lucinda Pisco: Que deslumbramento! Íamos lá contemplar aquela maravilha várias vezes ao dia, eu e mais os miúdos da minha rua, o Jorge, o Fernando e o Chico, outras vezes eu com as minhas duas irmãs mais novas. Já pelos oito, nove anos, como não havia pinheiros na minha terra, ia ao campo de onde trazia um arbusto que se parecesse com o pinheiro e armava a nossa própria árvore decorada com pratas dos bombons e algodão a imitar a neve. Isto já era mesmo o Natal dentro de casa...

 

A seguir foi o Natal já como trabalhador (tinha dez anos!) e fora do seio familiar. Nestes não cabiam os chocolates, recebia da minha patroa um par de meias ou umas cuecas. Fora isso não acontecia mais nada. A filha da patroa armava a árvore de natal na sala de jantar mas nessa divisão da casa estava vedada a minha entrada, de modo que eu só conseguia ver a dita-cuja, à sorrelfa quando não havia ninguém por perto, abrindo uma greta da porta e espreitando - no meu entendimento não fazia nada de mal. Na casa dos meus patrões não havia consoada, havia rancho melhorado no dia de Natal, mas eu almoçava e jantava sozinho no mesmo sítio de todos os dias num canto atrás do balcão, tendo por companhia o som de um rádio marca Braun, se o humor do patrão o permitia. O meu trabalho era empregado de balcão numa loja de tudo um pouco: mercearia, sementes e adubos, taberna. Sempre a mesma coisa das sete às vinte e duas horas, sete dias por semana, trinta dias por mês, durante vários anos. Era um tempo em que nunca ouvi a expressão trabalho infantil, e contudo...

19
Dez10

José, só pode ter sido "corno"!

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Como naquele tempo não havia método de concepção artificial - um filho só podia resultar de uma relação física Homem/Mulher - e José jurou "a pés juntos" que o filho não era dele, só uma conclusão se pode tirar: José foi corneado! Nunca saberemos com quem Maria se deitou!

A estória da imaculada concepção  ou seja sem pecado, é, como diz o padre Mário de Oliveira, um grosseiro insulto a todas as Mulheres/Mães do mundo e de todos os tempos, uma vez que, segundo essa estória são pecadoras. Pensemos no caso...

 

 

 

15
Dez10

Sabor

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O teu travo a madrugada

a erva-doce

 

O teu cheiro a madeiro

nos cabelos

 

O teu sabor a noite

a lua cheia

 

O teu odor a cravo

que se enleia

nas axilas brandas e vagueia

 

Entranhando-se doido

nos teus pêlos

 

Maria Teresa Horta

13
Dez10

Formigas, trabalho e cooperação!

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Esta foto foi tirada pelo João Luís, meu filho. Ao vê-la, veio-me à memória um texto do Sérgio Ribeiro publicado no Notícias da Amadora, ou na Seara Nova, faz muitos anos. O S.R. comentava aí, uma cena que lhe havia desagradado, em que o seu filho (ou filha), incentivado pelo avô, esmagava umas inofensivas formiguinhas. Desse texto retenho apenas essa parte, Já não tenho presente mais nada.

De facto as formigas são uns insectos interessantes (excepto aquelas que se introduzem na cozinha, invadem o açucareiro, a caixa da marmelada, o boião da geleia e do mel, etc.), socialmente organizadas, trabalhadoras, cada uma cumprindo rigorasamente a sua tarefa, e quando for chegado o momento entreajudam-se. São enfim um exemplo de camaradagem.

 

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