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11
Jul13

Um jantar. Califórnia. Anos quarenta

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Nestes entretantos cavacais, coelhais, irrevogáveis, e outros que tais, Vou lendo Henry Miller. Vou na quinta obra deste autor. Ainda na juventude (já tão longe...) ouvi falar muito dele. Amigos meus eram seus fãs. Daí que, sem o ler, conhecia o seu estilo, a sua linguagem desbragada, obscena - há quem o classifique de autor pornográfico - algumas páginas suas chegaram a ser lidas em voz alta em grupos de que eu fazia parte e a sua conhecida trilogia era sem dúvidas a mais popular.

Não sei porquê, nunca me decidi a pegar em qualquer dos seus livros. Até agora. Revelou-se-me um autor que tem tanto de interessante como de desconcertante, ou não fosse inspirado pelo surrealismo. Encontrei páginas de excelente literatura, fortemente autobiográficas, com alguma propensão para a inconsequência no plano das ideias.

Permito-me transcrever aqui uma pequena passagem de O Pesadelo de Ar Condicionado:

 

"Foi por puro acaso que dei comigo a caminho da casa de um milionário num bonito Packard preto. Tinha sido convidado para jantar por um desconhecido completo. Nem sequer sabia o nome do meu anfitrião. E continuo a não saber.

A primeira coisa de que me apercebi, ao ser apresentado a toda a gente, foi que estava na presença de pessoas ricas, pessoas mortalmente aborrecidas e todas elas, incluindo as octogenárias, já pifadas. O anfitrião e a anfitriã pareciam ter prazer em servir de empregados de bar. Era difícil acompanhar a conversa, porque estavam todos a misturar alhos com bugalhos. O importante era conseguirmos dizer qualquer coisa antes de nos sentarmos à mesa. Um velhadas que se refizera recentemente de um acidente de automóvel ia no quinto old-fashioned e mostrava-se muito orgulhoso disso, orgulhoso de ser capaz de emborcar como um jovem apesar de ainda se encontrar parcialmente estropiado. Toda a gente o considerava uma maravilha.

Não se via uma mulher atraente, excepto a que para ali me levara. Os homens pareciam homens de negócios, tirando um ou dois que pareciam fura-greves idosos. Havia um casal relativamente novo, acho que dos seus trinta e tal anos. O marido era o indivíduo agressivo e empreendedor típico, um daqueles ex-jogadores de futebol americano que se dedicam à publicidade, aos seguros ou ao mercado de títulos, uma ocupação limpa muito americana em que não se corre o risco de sujar as mãos. Estudara numa universidade qualquer da Costa Leste e tinha a inteligência de um Chimpanzé de primeira categoria.

Está descrito o cenário. Quando toda a gente estava adequadamente marinada, foi anunciado o jantar. Sentamo-nos numa mesa comprida, elegantemente decorada, com três ou quatro copos ao lado de cada prato. O gelo abundava evidentemente. O serviço começou, com uma dúzia de lacaios a zumbir ao nosso lado como moscas de cavalos. Havia um excesso de tudo: um pobre teria ficado satisfeito só com os hors-d'oeuvre. Enquanto comiam, os convidados foram ficando mais faladores, mais argumentativos. Um rufia idoso, de smoking, com a pele de uma lagosta cozida, rezingava contra os agitadores laborais. Para grande espanto meu, tinha uma disposição religiosa, mas mais para o lado de Torquemada do que de Cristo. O nome do Presidente Roosevelt quase lhe causava uma apoplexia. Rosevelt, Bridges, Estaline, Hitler, metia-os a todos no mesmo saco. Isto é, eram amaldiçoados. Tinha um apetite extraordinário que servia, segundo me pareceu, para lhe estimular as supra-renais. Quando chegou ao prato de carne estava a dizer que o enforcamento era bom de mais para certas pessoas. Entretanto, a anfitriã, que estava sentada a meu lado, travava uma daquelas deliciosas conversas inconsequentes com a pessoa que se encontrava à sua frente. Deixara uns belos bassets em Biarritz - ou teria sido na Serra Leoa? - e, a acreditar nela, estava preocupadíssima com eles. Nos tempos que corriam, afirmava, as pessoas esqueciam-se dos animais. As pessoas eram capazes de ser tão cruéis, especialmente em tempo de guerra. Imaginem, em Pequim os criados tinham fugido e haviam-na deixado com quarenta malas para fazer. Um escândalo. Era tão bom estar novamente na Califórnia. A terra de Deus, como dizia."

09
Jul13

Solidariedade com os profissionais do Teatro

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Na qualidade de espectador do Teatro Aberto, acabo de receber um carta da sua direcção, de que divulgo neste espaço alguns excertos. Aproveito para expressar toda a minha solidariedade aos profissionais do Teatro Aberto, e do Teatro em geral.

 

"Escrevo-lhe para dar conhecimento da situação em que a companhia do Teatro Aberto se encontra neste momento. (...)

 

Está em causa a nossa sobrevivência. (...) Temos inscrito no nosso código um gene combativo e construtivo. (...) Queremos juntar a nossa voz à indignação e ao protesto contra as políticas deste governo que estão a degradar progressivamente as condições de vida, de trabalho e de cidadania em Portugal.

 

Este governo acabou com o Ministério da Cultura e até extinguiu a Secretaria de Estado. Existe apenas um Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, que tem de assumir pessoalmente a responsabilidade de todos os ramos da política cultural do país. Dependente do Secretário de Estado, está a Direcção-Geral das Artes que tutela os apoios à criação artística.

 

Esta entidade encomenda estudos a fim de estabelecer critérios de avaliação e concebe grelhas para avaliar projectos artísticos que se candidatam aos apoios à criação. A Direcção-Geral das Artes nomeou uma Comissão de Apreciação para aplicar essas grelhas e avaliar as candidaturas ao apoio à criação teatral, para o qual abriu um concurso. A Companhia do Teatro Aberto foi avaliada, segundo essas grelhas, e colocada em 39º. lugar na lista das companhias de teatro nacionais.

 

(...)

 

O problema fundamental é que os factores valorizados  pelas políticas que estão por detrás destes concursos são discriminatórios e não contemplam a diversidade dos projectos artísticos. Vamos então falar do nosso caso concreto:

 

-O facto de termos espectáculos durante vários meses em cena;

-O facto de termos uma regular e elevada audiência de público;

-O facto de termos uma receita de bilheteira que contribui positivamente para o equilíbrio das contas da companhia, não é valorizado.

-O facto de sermos uma companhia sediada em Lisboa;

-O facto de termos um teatro próprio;

-O facto de termos uma equipa de carpinteiros que constroem os cenários, uma equipa de técnicos de luz, som e vídeo, uma mestra de guarda-roupa entre outros profissionais que formam um colectivo que trabalha para o mesmo fim, não é valorizado.

-Termos uma história não é valorizado;

-Fazermos audições com regularidade e estarmos atentos aos jovens actores não é valorizado;

-Apresentarmos uma programação de teatro contemporâneo, português e estrangeiro, com uma coerência estética, não é valorizado.

 

Os critérios utilizados reflectem uma vontade do poder político de destruir as companhias estáveis, com projectos consistentes e consequentes de entre os quais o Teatro Aberto foi escolhido como primeiro alvo. Temos direito a ser diferentes.

 

(...)

 

Somos, acima de tudo, um teatro ao serviço da cidade e dos cidadãos. Estamos inseridos na comunidade, temos parcerias com escolas, os bairros da cidade, as juntas de freguesia. Temos uma boa relação com a Câmara Municipal de Lisboa, com a qual temos um protocolo, que é cumprido por ambas as partes.

 

Somos uma companhia para a qual a experiência é uma massa crítica importante quando conjugada com a inovação. Fomentamos a aprendizagem mútua entre os vários elementos da nossa equipa, o conhecimento e a experiência são passados em discurso directo, no trabalho criativo que desenvolvemos em conjunto. Querem acabar com esta forma de estar no teatro.

 

Apresentámos aqui o nosso caso, mas a questão de fundo é que esta política de terra queimada afecta todos os sectores da sociedade. Este Governo, por incompetência ou por agenda ideológica está a destruir o país a nível social, económico e cultural, a matar a esperança, mostrando que as formas de luta de nada servem para alterar a injustiça que grassa neste país. Vemos nos jornais declarações unânimes de repúdio, na televisão protestos vindo de todos os quadrantes políticos e sociais, nas ruas, greves e grandes manifestações. E nada muda!

 

Nós queremos que as coisas mudem."

 

João Lourenço

 

O Teatro Aberto tem em cena, até ao dia 28 de Julho, a peça O PREÇO, de Artur Miller.

 

 

08
Jul13

Método Madin Guantánamo...

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O músico americano Mos Def, numa iniciativa da ONG Reprieve visando denunciar a barbaridade dos métodos utilizados pelas autoridades norte-americanas, dispôs-se a ser alimentado à força, tal como está a acontecer aos prisioneiros mantidos à longo tempo na base americana de Guantânamo. É uma crueldade atroz, autêntico método de tortura!

06
Jul13

Apresento-vos a minha cidade

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Neste período de férias, será um momento adequado para apresentar Setúbal e a Serra da Arrábida. Para quem não conhece, vir a Setúbal será uma descoberta fascinante. Para quem já conhece, seguramente, descobrirá recantos que anteriormente lhe haviam escapado. Vinde, e aproveitai uma refeição num dos inúmeros restaurantes e tascas da cidade, nomeadamente, com peixe divinal.

Este vídeo, numa sucessão de belas fotografias, é o convite irrecusável.

05
Jul13

Notícias do país mais rico do mundo

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"Mas esses dias acabaram, declara orgulhosa, enquanto aponta para o grande M amarelo que tem bordado no boné. Ainda não tem horário fixo, mas trabalha todos os dias: Neide não é mais uma temp. O salário, esse continua igual. "Só não nos pagam menos porque a lei não deixa" escarnece.

Neide está entre quatro milhões de trabalhadores que recebem o salário mínimo: 7.25$/hora a nível federal, 8$/hora em Massachusetts. Entre 1968 e 2012 os lucros dos 1% mais ricos dos EUA aumentaram 115%, enquanto o valor do salário mínimo real caiu mais de 31%. Se tivesse acompanhado o custo de vida ao longo dos últimos 40 anos, o salário mínimo federal seria hoje 10.52$/hora. Para um trabalhador viver acima do limiar da pobreza, teria de ganhar 12.5$/hora, o que condena Neide e 16% dos estado-unidenses à pobreza.

Vinte estados gozam de salários mínimos acima do nível federal, mas em nenhum o salário mínimo consegue suportar a renda de um apartamento de dois quartos ou sustentar dois filhos. E como Neide, dois terços dos trabalhadores que ganham o salário mínimo são mulheres.

A crise do capitalismo foi um maná para as multinacionais da comida rápida. Só em 2012, a McDonalds atingiu os 5.5 biliões de dólares em lucro e a Yum! Brands (KFC, Pizza Hut, Taco Bell, etc.) ultrapassou os 1.4 biliões. Apesar dos resultados vantajosos, 6=% dos 19 milhões de trabalhadores da restauração vivem na pobreza."

 

António Santos no jornal Avante

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