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08
Abr16

Epitáfio na areia - poema de 1935

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Jaime Cortesão

"Estrangeiro, que pisas com desdém

A minha campa, em balde buscarás

Sobre uma pedra um nome: o que aqui jaz

É mais que pó e menos que ninguém.

 

Eu sou aquele malogrado Bem,

Que em chão alheio e amargo se desfaz,

E nem aqui, sepulto, encontro paz,

Lembrando o que não fui e já não vem.

 

Mas quem me entenderá?! Talvez o mar,

Que eu oiço aqui ao lado soluçar,

E, sonho estéril, se desfaz em espuma.

 

Tu, não. Prossegue. E eu fique nesta horrível,

Infecunda saudade do impossível,

Até que a dor.. o vento me consuma..."

 

Jaime Cortesão (1884-1960)

06
Abr16

A Maria Luísa Costa Dias a Sisaltina Maria dos Santos e o Zezinho

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(...)

De um prisioneiro  e nada mais, seriam todas as suas horas durante o ano inteiro que agora se abria para ele na Fortaleza de Caxias.

Os nossos esforços esbarravam sempre com a recusa sistemática. Nenhuma excepção. Para o Zezinho não haveria qualquer tempo suplementar de recreio. Apenas uma hora por dia - quando havia - juntamente connosco. Era o regulamento.

A lotação da sala variava ao sabor das oscilações acidentais. Prevista a sua capacidade para um máximo de sete pessoas, chegamos a ser onze. E o Zezinho.

Armadas as camas em colunas de dois e três beliches, assim mesmo o espaço livre que ficava para o menino circular era insignificante. Valíamo-nos então de todos os nossos recursos para acudir a essa necessidade vital da criança. Na intenção de proporcionar-lhe o máximo de espaço, muitas de nós era sentadas sobre as respectivas camas (...) que passávamos a maior parte do tempo estudando, lendo ou confeccionando trabalhos de mão.

Não era a necessidade de distrair o Zezinho no seu dia-a-dia que nos dava maiores cuidados. Pelo contrário. Inúmeras vezes nos surpreendia com enternecimento a sua capacidade para se bastar a si próprio, para fantasiar os seus brinquedos e passatempos, quase sempre inspirados na imagem do pai.

... O que estás a fazer, Zezinho? - perguntávamos.

- A fazê com'o pai... - O pai que ele não esquecia nas mais variadas circunstâncias, sobrepondo-se a imagem do seu convívio interrompido havia um ano às experiências do tempo presente.

... As celas, com nove metros de comprimentos por sete de largura, tinham apenas uma pequena janela com vidros dispostos para arejamento indirecto. Era insuficientíssima. Mas, assim mesmo, o seu acesso estava-nos interdito. As grossas barras de ferro interiores lá estavam limitando o vão correspondente a uma parede de setenta centímetros de espessura.

A uma tal distância, os nossos braços estendidos por entre as grades não atingiam a janela, mas isso não nos impedia de nos esforçarmos por conquistar para o menino o mais próximo contacto possível com o ar puro do exterior. Ora uma ora outra, erguíamos o Zezinho nos braços e mantinhamo-lo deste modo junto das grades.

Assim era de dia. Mas à noite... Ah!, à noite, com as mãozinhas apoiadas nas grossas barras, os olhos negros do Zezinho brilhavam e perdiam-se, deslumbrados, para lá das grades.

Por cima do talude de terra que se erguia a todo o comprimento da Fortaleza, das janelas do primeiro andar, Lisboa avistava-se ao longe numa faixa cintilante de luzes.

- O que é aquilo, mãe? - perguntara uma vez o Zezinho. - São as luzes da capital meu filho.

A partir daquela noite, passou a constituir um ritual. Antes de se deitar, o Zezinho procurava a mãe e levando-a para junto da janela estendia-lhe os braços pedindo: - Mãe, pega-me ao colo. Vamos vê as ujes da capitao.

Estes são alguns fragmentos do belo conto da Maria Luísa Costa Dias.

O Zezinho, cerca de dois anos depois de ser preso com a mãe, regressou à mesma clandestinidade onde a PIDE os haviam ido prender. E quando a idade de frequentar a escola chegou, teve de deixar, não apenas o pai, o seu modelo, o seu herói, mas também a mãe, tal como aconteceu antes com o seu irmão Joaquim, com quem nunca teve a alegria de brincar e conviver. O Zezinho, O José Leal, só voltou a viver com os seus pais depois do 25 de Abril. Imagino os dias, e anos, de angústia que viveram os seus pais, só tendo notícias esporádicas. Imagino a angústia do Zezinho quando deixou a casa dos pais. Afinal, o Zezinho e os muitos outros zezinhos deste país viveram vidas complicadas para que um dia acontecesse a Alvorada de Abril.

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05
Abr16

A Sisaltina Maria dos Santos fez 90 anos!

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Festejou na companhia dos seus filhos, netos, bisnetos, outros familiares e de muitos amigos. Foi uma celebração com muito carinho, muita alegria, muita emoção também. Neste dia festejamos igualmente o aniversário do seu bisneto Rafael e recordámos que  o pai da Tina Santos fazia anos hoje. A Tina Santos (é assim, carinhosamente que apenas eu a trato) é uma das Mulheres da minha vida. convivemos quase diariamente desde o seu regresso , com o Américo Leal, da clandestinidade - que a privou de ter consigo os seus filhos, e onde foi Maria Carolina e também Maria Antónia e também Cristina .

Foi-me grato estar presente, confraternizar e beijar e abraçar esta valente Mulher. E abraçar o Américo Leal ,já nos seus 94 anos, esse valente Homem que contínua no activo.

Obrigado Tina Santos por tudo o que fizeste . Obrigado pela tua verticalidade. Obrigado pela tua amizade. Mais uma vez, muitos Parabéns.

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03
Abr16

145 anos da Comuna de Paris

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A Liberdade Guiando o Povo, quadro de Eugène Delacroix, pintado depois dos acontecimentos revolucionários de 1830 em Paris. A Liberdade personificada numa mulher do povo, talvez a obra mais simbólica do inicio do romantismo na arte pictórica.

"Mesmo que não tivesse lutado pelo meu país, pelo menos pinto-o", afirmou o pintor a propósito desta sua obra.

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