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11
Jan14

Chaminés de antigas fábricas de conservas de peixe

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O mar de Setúbal, rico em peixe, favoreceu a existência na cidade de um relevante centro piscatório, e, consequentemente, sempre foi importante o processamento do pescado. Remontam ao período romano os vestígios mais importantes - as tulhas de salga (chamadas cetárias) que podem ser vistas no edifício do Turismo onde antes funcionava a Comissão de Turismo Costa Azul. O famoso garum, tão apreciado pelas elites romanas, era levado para Roma em ânforas de barro. De então para cá, ao longo dos tempos, tal actividade sempre teve considerável expressão em Setúbal. Conheceu um desenvolvimento significativo nos finais do século XIX com a vinda de empresários franceses.

O desenvolvimento da indústria conserveira deu origem ao surgimento de empresas de latoaria, tipografia e litografia.

A indústria conserveira foi durante décadas a única actividade industrial local, que coexistia com a pesca e a extracção de sal.

O cheiro a peixe apanhava os narizes desprevenidos ou ignorantes, ignorantes das artes industriais da cidade. O cheiro, quando o vapor cozia o peixe, cobria a cidade com uma violência que só desaparecia à custa de muito hábito e de nariz muito batido naqueles odores de cozedura.*

Gerações sucessivas de setubalenses tinham aí o seu ganha pão. Então, a Mulher era vítima de escandalosa exploração - na segunda década do século XX, enquanto o soldador auferia 800 reis, os moços 550 reis e os rapazes 240 reis, as Mulheres ficavam-se pelos 160 reis! Para além disso, se não havia peixe não havia trabalho. E sem trabalho não havia salário.

As fábricas não tinham horário de funcionamento. Abriam ao ritmo da dádiva do mar. Quando o mar estava generoso e entregava às traineiras toneladas de sardinha ou cavala, toda a máquina de produção conserveira se oleava e começava frenética naquelas jornadas intermináveis. Intermináveis o tanas. Intermináveis até terminarem, que depois podiam ser vários dias sem salário.*

Em 1897 havia em Setúbal 26 unidades industriais conserveiras. Na segunda década do século XX atingiu as 85 fábricas (convenhamos que, é expectável algumas delas não passarem de fabriquetas sem as mais condições elementares de laboração e usando métodos rudimentares) cuja produção ultrapassava as 50.000 caixas (100 latas cada cx). Em 1920 foram identificadas 130 fábricas em Setúbal, com cerca de 10.000 trabalhadores, dos quais cerca de 95% eram Mulheres e Mulheres/crianças.

A cidade dos anos 40 tinha ainda muita fábrica a funcionar. Já não era aquela avalanche que se tinha sentido há duas ou três décadas atrás. Nessa altura parecia que as fábricas de conservas tinham sido semeadas por toda a parte. Depois foram decrescendo a pouco e pouco.*

Em 25 de Abril de 1974 era ainda significativo o número de empresas em laboração que constituíam o sector, embora em franco declínio! Hoje, não há uma sequer! Tal como as fábricas, a pesca foi sendo matada pelas políticas desastrosas que têm sido praticadas pelos sucessivos governos.

Resta a memória. Restam inúmeras chaminés espalhadas pela cidade e ainda algumas ruínas do que antes foram fábricas. Excepção é a fábrica Prienes, adquirida pelo município, que alberga o Museu do Trabalho Michel Giacometti, contendo abundante material da indústria conserveira. Museu a merecer uma visita, que cada um certamente considerará enriquecedora.

*Em As Mulheres da Fonte Nova, de Alice Brito

 

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