Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

divagares

divagares

02
Ago18

A Morte do Leiteiro

divagares

digitalizar0001.jpg

Há pouco leite no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há muita sede no país,

é preciso entregá-lo cedo.

Há no país uma legenda,

que ladrão se mata com tiro.

 

Então o moço que é leiteiro

de madrugada com sua lata

sai correndo e distribuindo

leite bom para gente ruim.

Sua lata, suas garrafas,

seu sapato de borracha,

vão dizendo aos homens no sono

que alguém acordou cedinho

e veio do último subúrbio

trazer o leite mais frio

e mais alvo da melhor vaca

para todos criarem força

na luta brava da cidade.

 

Na mão a garrafa branca

não tem tempo de dizer

essas coisas que lhe atribuo

nem o moço leiteiro ignaro,

morador na rua Namur,

empregado no entreposto,

com 21 anos de idade, 

sabe lá o que é impulso

de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo

vai deixando à beira das casas

uma apenas mercadoria.

 

E como a porta dos fundos

também escondesse gente

que aspira ao pouco de leite

disponível em nosso tempo,

avancemos nesse beco,

peguemos o corredor,

depositemos o litro...

Sem fazer barulho, de resto,

que barulho nada resolve

 

Meu leiteiro tão subtil

de passo maneiro e leve,

antes desliza que marcha.

É certo que algum rumor

sempre e faz: passo errado,

vaso de flor no caminho,

cão latindo por princípio,

ou um gato quezilento.

E há sempre um senhor que acorda

e resmunga e torna a dormir.

 

Mas esse acordou em pânico

(ladrões infestam o bairro!),

não quis saber de mais nada.

O revólver da gaveta

saltou para sua mão.

Ladrão? se pega com tiro.

Os tiros na madrugada

liquidaram meu leiteiro.

Se era noivo, se era virgem,

se era alegre, se era bom,

não sei, já é tarde pra saber.

 

O homem perdeu o sono

de todo, e foge prá rua.

Meu Deus, matei um inocente.

 

Bala que mata gatuno

também serve pra furtar

a vida de nosso irmão.

Quem quiser que chame médico,

polícia não bota a mão

neste filho de filho de seu pai.

Está salva a propriedade.

A noite geral prossegue,

a manhã tarda a chegar,

mas o leiteiro

esticado e ao relento

perdeu a pressa que tinha.

 

Da garrafa estilhaçada

no ladrilho já sereno

escorre uma coisa espessa

que é leite, sangue... não sei.

E entre objectos confusos,

mal redimidos da noite,

duas coisas se procuram,

suavemente se tocam,

amorosamente se enlaçam,

formando um terceiro tom

a que chamamos aurora.

 

É a Morte do Leiteiro, que o poeta dedicou a Ciro Novais. É um poema. É um conto. É uma legenda social impressiva, que só os grandes poetas conseguem construir.

 

 

 

 

 

.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D