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divagares

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07
Dez14

Os "ratinhos"

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Foi com a Adelaide, de carrinha, ver os "ratinhos" na ceifa. Parecia um dia de Agosto. O sol ofegava, em chamas claras, no suão escaldante sobre as piorneiras emaranhadas, de onde se levantavam os tordos e as cotovias, junto à carreteira, e os trigais ondulantes ardiam na vesâmia da manhã rubriloura, opressa de calor, Alguns trinta e muitos graus à sombra, perto de quarenta... Uma das raparigas da Beira, já lhe dera um "badagaio", por causa daquela calma. "Não estão avezados" - explicava o Queixada, enquanto lhe ia borrifando a face com água, suspendendo-se amiúde para aventar bolegadas a um perro vagabundo, que teimava em acercar-se da chanfana que um dos "ratinhos", muito vermelho e desabotoado, estava preparando ao lume para o almoço. Eram quase todos baixos, malfeitos, de perna curta, troncudos, grandes cabeças de lusitanos, como estátuas românicas, mas o sorriso aberto, o olhar vivo malicioso, a palavra fácil. "Salve-as Deus", "Deus vos ajude" - cumprimentavam os mais velhos. Nem aquelas saudações faltavam. Teresa conhecia bem aquele tipo humano, que comia e dormia com o gado nas suas aldeias de pedra e penava sem desfalecimento para amealhar dinheiro, para educar os filhos, para acrescentar as suas leiras. Gente dada, de bom convívio, gente de aço e de borracha, dócil e tenaz, geba mas esperta, sabendo viver com Deus Nosso Senhor e com os seus interesses. Gente forte e humilde da sua terra, apta para todas as fainas. Também ela era da mesma massa. Sentia-se fisicamente canhestra e espessa como eles. O Queixada, no meio dos "ratinhos", de jaqueta ruça, delgado, torneado, o nariz adunco e nervoso, os lábios finos, o pescoço alto, uma nuca perfeita, sob o lenço esvoaçante que a protegia do sol, parecia um príncipe do deserto, de outra raça, mais fechada, mais bela e mais triste.

 

Urbano Tavares Rodrigues, em O "Monte" das Rosas

 

Os "ratinhos" eram os trabalhadores das Beiras, contratos pelos grandes latifundiários do Alentejo e Ribatejo, constituindo "ranchos" mais ou menos numerosos para trabalhos sazonais da monda e da ceifa. Era um recurso dos grandes agrários para não pagarem aos trabalhadores locais os salários que reivindicavam. A presença dos "ratinhos" - no Ribatejo eram chamados de "gaibéus" - gerava tensão e hostilidade, já que estes sujeitavam-se a baixos salários, afectando por isso a acção reivindicativas dos alentejanos e ribatejanos.

 

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