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13
Jul15

Submundo

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Tem a palavra o escritor norte-americano Don DeLillo, por intermédio de uma personagem da sua bela obra Submundo (Sextante editora). Apesar das suas 840 páginas, soube a pouco:

De noite sentávamo-nos no convés a contemplar o céu, tão límpido e tão belo, e às vezes viamos uma espécie de halo a mover-se sobre os mantos de estrelas, e tentávamos adivinhar o que seria aquilo. Aviões de passageiros a percorrer as rotas do Atlântico Norte ou ovnis, está a ver, já na altura se falava muito disso. Um disco luminoso a sulcar lentamente os ares. Esbatido e lá longe, muito alto. E parecia-me que era demasiado alto para um avião de passageiros. E sabia que os bombardeiros estratégicos voavam a mais de quinze mil metros de altitude. E concluí que aquilo era a luz refractada de um objecto a passar lá longe, assumindo aquela forma circular. Porque queria convencer-me que era isso que estavamos a avistar. B-52. A guerra assustava-me, é claro, mas aquelas luzes, deixe-me que lhe diga, aquelas luzes eram uma sensação complexa. Aqueles aviões em alerta permanente, sempre presentes, compreende-se, a patrulhar as fronteiras soviéticas, e eu lembro-me de estar ali sentada, a baloiçar ao de leve, com o iate ancorado numa enseada deserta, e experimentar uma sensação de assombro e temor, uma impressão de mistério e perigo e beleza, qual criança quase a adormecer. Acho que o poder é isto. Acho que quando mantemos uma força no mundo que penetra no sono das pessoas, então estamos a exercer um poder relevante. Porque eu respeito o poder. Agora que esse poder está feito em cacos ou em fanicos e agora que as tais fronteiras soviéticas já não existem da mesma forma, acho que compreendemos tudo, olhamos para trás e vemo-nos com mais nitidez, e a eles também. O poder significava muita coisa há trinta, quarenta anos. Era uma coisa estável, concentrada, palpável. Era grandeza, perigo, terror, todas estas coisas. E mantinha-nos coesos, aos soviéticos e a nós.Talvez mantivesse o mundo coeso. Podiamos medir as coisas. Podíamos medir a esperança e podíamos medir a destruição. Não é que eu deseje regressar a essa lógica. Já passou, bons ventos a levem. Mas é um facto.

(...)

-Muitas coisas que estavam dependentes do equílibrio de poder e do equílibrio do terror parecem ter-se desfeito, ter-se desagregado. As coisas deixaram de ter limites. O dinheiro já não tem limites. Deixei de compreender o dinheiro. O dinheiro liquefez-se. A violência liquefez-se, é agora mais fácil, desenraizou-se, descontrolou-se, já não tem limites, já não se pauta por um conjunto de valores.

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